31 de dezembro de 2007

É Deus e assemelha-se a mim!



«A virgem está pálida e olha para o menino.
Seria preciso pintar no seu rosto aquela admiração ansiosa que se viu apenas uma vez num rosto humano.
Porque Cristo é o seu filho, a carne da sua carne e fruto do seu ventre.
Ela teve-o em si própria durante 9 meses e dar-lhe-á o seio e o seu leite tornar-se-á sangue de Deus.
Nalgunsmomentos a tentação é tão forte que esquece que Ele é Filho de Deus.
Aperta-O nos braços e sussura-lhe:"Meu pequerrucho".
Mas noutros momentos fica perplexa e pensa: "Deus está ali",
e é invadida por um religioso temor por este Deus mudo,
por esta criança que num certo sentido incute medo.
Todas as mães ficam perplexas, por um momento, diante daquele fragmento rebelde da sua carne que é a sua criança,
e sentem-se exiladas perante esta nova vida feita da sua vida,
habitada por pensamentos alheios.
Mas nenhum filho foi arrancado à sua mãe de forma tão cruel e radical, porque Ele é Deus e ultrapassa completamente tudo o que ela poderia imaginar...
Mas penso que houve também outros momentos, rápidos e fugazes,
em que ela sente que Cristo é seu Filho, o seu menino, e que é Deus.
Olha-O e pensa: "Este Deus é meu menino.
Esta carne é a minha carne, é feito de mim, tem os meus olhos
e a forma da sua boca é semelhante à minha, assemelha-se a mim,
é Deus e assemelha-se a mim."
E nenhum homem recebeu da sorte o seu Deus só para si,
um Deus tão pequenino para apertar nos braços e cobrir de beijos,
um Deus quentinho que sorri e respira, um Deus que se pode tocar e que ri.
E é nesses momentos que eu, se fosse pintor, pintaria Maria.»

Jean Paul Sartre
Trecho teatral escrito por ocasião do Natal, enquanto prisioneiro

30 de dezembro de 2007

O Deus que se revela - I

Como seria Jesus Cristo se vivesse nos dias de hoje? Como se vestiria? Como reagiria perante o comportamento do homem actual? Qual seria o seu posicionamento perante a política, a ciência e a cultura nas sociedades de hoje? Como agiria perante as dificuldades que nos apoquentam? Parece que às vezes nos esquecemos que Ele viveu neste mundo, teve que se alimentar, sentiu o calor ardente de um dia estival, provou o doce aroma de uma romã e o amargo trago do vinagre. Rodeados, como estamos, de imagens gloriosas do Homem perfeito, do Jesus soberano, do Cristo libertador acabamos por transformá-Lo num daqueles super heróis que inspiram o imaginário juvenil, exaltados pelos seus feitos admiráveis, mas desvalorizados na consciência do nosso íntimo como seres imaginários, inventados pelo idealismo do homem.

A origem do homem, o mistério da morte e o que se esconde para além dela ou a causa da nossa existência são temas largamente explorados pelo homem actual. Há uma necessidade crescente de procurar uma justificação para a nossa condição. Fenómenos como o laicismo, o ateísmo ou o gnosticismo florescem na fraqueza da consciência humana. Onde está Deus? Porque não o vejo? Porque não me ajuda naquela situação injusta que vivo? Porque não muda aquilo que me provoca sofrimento? Eis algumas das questões que despertam o divórcio actual entre o divino e o humano.

O homem procura um Deus paternalista, que lhe resolva os problemas quotidianos, que lhe aplaque os sofrimentos e lhe abra caminhos para satisfazer os seus desejos. Ora, este Deus não existe. É de facto o Deus da bondade, o Deus do amor, o Deus da misericórdia, todavia a mensagem que nos faz chegar a partir de Jesus Cristo conduz-nos à aceitação plena das nossas limitações e dos nossos fracassos propondo-nos uma visão optimista e, ao mesmo tempo, realista do dinamismo do mundo que nos rodeia. A demonstração concreta do "agir à maneira de Deus" dentro da nossa limitação de seres humanos é nos dada por Jesus Cristo, o Homem no qual verdadeiramente se concilia o humano com o divino, a concretização objectiva do Criador na criatura.

25 de dezembro de 2007

Domenico Zipoli , sj (1688-1726)

Domenico Zipoli nasceu em Prato, perto de Florença, onde, na sua catedral, foi desde cedo instruído na educação musical, suportada pelo patrocínio do Grã-Duque da Toscânia, Cosme III. Estudou em Nápoles, Bolonha, e Roma com grandes mestres entre os quais se podem destacar Scarlatti, Vannucci ou Pasquini. Neste período de formação compôs diversas obras e em 1715 foi nomeado organista e mestre de capela da igreja mãe dos jesuítas, em Roma (Igreja do Gesú), cargo que representava a máxima aspiração aos músicos da sua época e, no qual continuou a publicar várias peças para teclas que foram muito bem recebidas e lhe trouxeram a fama.

Em 1716 entrou na Companhia de Jesus e pouco tempo depois seguiu para Sevilha onde esperou passagem para o Paraguai onde iria ser missionário. Nesta cidade, o famoso organista residiu nove meses, o suficiente para tornar-se popular não só para os sevilhanos, mas também para habitantes de outras cidades, que para escutá-lo, percorriam longas distâncias. "Quando improvisa na Catedral para os sevilhanos é festa grande", escrevem os cronistas da época. Na Catedral de Sevilha ofereceram-lhe o lugar de mestre de capela que, Zipoli recusou por entrar na Companhia de Jesus.

Com outros 53 missionários jesuítas, partiu de Cádis em Abril de 1717 e, depois de uma violenta tempestade, desembarcaram em Buenos Aires, três meses após a partida. Quinze dias depois fixou-se em Córdoba onde completou os seus estudos de filosofia e de teologia com distinção.

Durante o seu tempo de formação filosófica e teológica nunca deixou de se dedicar à música, quer como compositor, mestre de capela ou organista, desenvolvendo em muito os talentos musicais dos Guaranis e integrando nas suas obras de estilo barroco alguns elementos da cultura dos índios.

Em 1724, Zipoli acaba o seu 4º ano de teologia mas, por falta de bispo que em Córdoba o pudesse ordenar padre, acaba por não lhe ser administrado este sacramento. Adoece com tuberculose e acaba por morrer em 2 de Janeiro de 1726 com 37 anos.

Durante numerosos anos a sua música foi tocada e cantada pelos coros Guaranis e outros. Para além de muito apreciada pelos seus companheiros jesuítas e pelos índios que enchiam as igrejas para a ouvir, foi também uma grande influência para outros compositores. Documentos relacionados com os jesuítas de 1728, 1732 e até mais tarde, descrevem a reputação deste compositor pelo menos até 1774, em algumas missões Guarani, no seu exterior e até na Europa. Numa destas missões, S. Pedro e S. Paulo, nove motetos de Zipoli foram listados entre os pertences deixados pelos jesuítas aquando da sua expulsão.

Algumas das suas peças para instrumentos de tecla e de música sagrada, que se julgavam perdidas para sempre, foram reencontradas nos anos 70 do século passado, nas antigas missões de Chiquitos e Moxos (hoje em território boliviano). Uma descoberta que permitiu reconstituir pela primeira vez o fabuloso universo musical das famosas reduções jesuítas do Paraguai (assim eram chamadas as missões dos jesuítas com os índios na América do Sul). Zipoli não foi apenas um brilhante músico. Foi um homem generoso, que deixou a fama e o sucesso na Europa para dedicar a sua vida à salvação dos índios Guarani. Tinha um fervor criativo e executivo, sensível à espiritualidade e à vida meditativa, mas também era dotado de um modo estar extremamente tranquilo e, por isso, caro a Deus e ao próximo.

Legenda das imagens:

1 - Planta de redução jesuíta Sul-Americana para índios Guarani

2 - Extracto da partitura da peça Ave Maris Stella de Domenico Zipoli


Para ouvir um pouco da obra de Domenico Zipoli proponho:

Ave Maris Stella - para solistas, coro e orquestra

(Direcção de : Gabriel Garrido; Interpretam: Coro de niños de Córdoba, Affetti musicali - Argentina, Ensemble Elyma - Buenos Aires)


24 de dezembro de 2007

Conto de Natal


Josefina Bakhita - Testemunha da Esperança

"Nascera por volta de 1869 – ela mesma não sabia a data precisa – no Darfur, Sudão. Aos nove anos de idade foi raptada pelos traficantes de escravos, espancada barbaramente e vendida cinco vezes nos mercados do Sudão. Por último, acabou escrava ao serviço da mãe e da esposa de um general, onde era diariamente seviciada até ao sangue; resultado disso mesmo foram as 144 cicatrizes que lhe ficaram para toda a vida. Finalmente, em 1882, foi comprada por um comerciante italiano para o cônsul Callisto Legnani que, ante a avançada dos mahdistas, voltou para a Itália. Aqui, depois de « patrões » tão terríveis que a tiveram como sua propriedade até agora, Bakhita acabou por conhecer um « patrão » totalmente diferente – no dialecto veneziano que agora tinha aprendido, chamava « paron » ao Deus vivo, ao Deus de Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Mas agora ouvia dizer que existe um « paron » acima de todos os patrões, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo « Paron » supremo, diante do qual todos os outros patrões não passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada; mais ainda, este Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela « à direita de Deus Pai ». Agora ela tinha « esperança »; já não aquela pequena esperança de achar patrões menos cruéis, mas a grande esperança: eu sou definitivamente amada e aconteça o que acontecer, eu sou esperada por este Amor. Assim a minha vida é boa. Mediante o conhecimento desta esperança, ela estava « redimida », já não se sentia escrava, mas uma livre filha de Deus. Entendia aquilo que Paulo queria dizer quando lembrava aos Efésios que, antes, estavam sem esperança e sem Deus no mundo: sem esperança porque sem Deus. Por isso, quando quiseram levá-la de novo para o Sudão, Bakhita negou-se; não estava disposta a deixar-se separar novamente do seu « Paron ». A 9 de Janeiro de 1890, foi baptizada e crismada e recebeu a Sagrada Comunhão das mãos do Patriarca de Veneza. A 8 de Dezembro de 1896, em Verona, pronunciou os votos na Congregação das Irmãs Canossianas e desde então, a par dos serviços na sacristia e na portaria do convento, em várias viagens pela Itália procurou sobretudo incitar à missão: a libertação recebida através do encontro com o Deus de Jesus Cristo, sentia que devia estendê-la, tinha de ser dada também a outros, ao maior número possível de pessoas. A esperança, que nascera para ela e a « redimira », não podia guardá-la para si; esta esperança devia chegar a muitos, chegar a todos." Foi canonizada no ano 2000 pelo Papa João Paulo II.

In Carta Encíclica Spe Salvi, do Papa Bento XVI

22 de dezembro de 2007

The Messiah


Ontem fomos ver o «Messias» de Händel à Igreja da Lapa no Porto. Provavelmente a oratória mais popular deste compositor alemão.

The Messiah, HWV 56 foi motivado pelo convite do Duque de Devonshire para escrever uma obra que servisse a um concerto de beneficência a favor dos presos e dos pobres de Dublin. Por isso, Händel teve de a compor em apenas vinte e quatro dias.

Conta-se que, ao terminar esta obra, Händel terá dito: «Acredito ter visto o céu aberto e o próprio Deus diante de mim». O libreto é da autoria de Jennens, que compilou uma série de textos bíblicos em três partes distintas, que ligam a obra tanto à Páscoa como ao Natal.

The Messiah estreou a 13 de Abril de 1742, no Music Hall de Dublin, com enorme êxito. No dia seguinte, o popular Dublin Journal terá escrito acerca da obra: «o sublime, o grandioso e comovente deram-se as mãos para arrebatar o coração e o ouvido».

A tradição diz que, ao ouvir-se o coral «Hallelujah», todo o público se levantou juntamente com o rei. Ontem, na Igreja da Lapa no Porto, a tradição manteve-se.

Deixo alguns links com mais informações sobre esta obra emblemática.

(ler)

(Ouvir)


19 de dezembro de 2007

Jacques Dupuis, SJ: polémica ou profecia?

«Se imaginarmos, como Inácio, a Trindade contemplando a Terra, nos umbrais do Terceiro Milénio, que vemos? Mais de cinco biliões de seres humanos: uns homens, outros mulheres, uns ricos, outros – muito mais numerosos – pobres; uns amarelos, outros mulatos, outros negros, outros brancos; uns em paz, outros em guerra; uns cristãos (1 bilião 950 milhões), outros muçulmanos (1 bilião), outros hindus (777 milhões), outros budistas (341 milhões), outros fiéis de novos movimentos religiosos (128 milhões), outros crentes de religiões indígenas (99 milhões), outros judeus (14 milhões), outros sem religião nenhuma (1 bilião e 100 milhões). Que significado tem para a nossa vida e missão evangelizadoras e que oportunidade lhes oferece esta abundante pluralidade étnica, cultural e religiosa que caracteriza o mundo de hoje?» (Congregação Geral 34, decreto 5)

A corajosa pergunta que os jesuítas faziam a si mesmos em 1995 (a Congregação Geral é uma espécie de “reunião magna”) constitui o centro de gravitação da vida e do pensamento teológico do P. Jacques Dupuis.
Tendo nascido na Bélgica em 1923 e ingressado na Companhia em 1941, viveu grande parte da sua vida na Índia. Aí, na leccionação da Teologia, como no contacto diário com um universo religioso diferente do europeu, desenvolveu a sensibilidade para a questão do pluralismo religioso. Tendo-se tornado “a questão” da sua reflexão teológica cristã, vemos surgir, já na sua fase de leccionação na Universidade Gregoriana (Roma – de 1984 a 1998) uma série de livros e artigos onde a equaciona na sua relação à centralidade e universalidade de Jesus Cristo e à importância da Igreja para a salvação.
Com a cautela que é exigida aos “pensadores de fronteira”, o P. Jacques Dupuis preocupou-se sobretudo em questionar a forma como a perspectiva e linguagem teológicas lidavam com as outras religiões (e as suas figuras salvíficas) e com o seu valor (equacionado na fé no desejo salvífico universal de Deus) na relação à justa pretensão cristã do papel central de Jesus Cristo na salvação de todos os homens e mulheres.
Entre um modelo teológico que coloca Deus no centro e Jesus Cristo entre as outras figuras da história das religiões (tese pluralista) e um outro que desvaloriza a contribuição que as religiões podem dar para a salvação dos seus membros (tese inclusivista – Jesus Cristo salva e até se pode dar uma pertença “anónima” à Igreja), propõe o P. Jacques Dupuis a exploração desse “território aberto” onde um pluralismo inclusivo (como chama à sua tese) abre o lugar a considerar simultaneamente (e sempre duma forma “tímida”) a forma como as outras religiões são “queridas por Deus” e como o evento Jesus Cristo tem, ainda assim, “constitutivamente”, valor salvífico único e universal.
Sem conclusões e sem pretensão a elas, pôde o P. Jacques Dupuis abrir mais um pouco o exigente caminho do diálogo do cristianismo com as outras tradições religiosas.
A Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé (2001) deve, por isso, ser entendida não como um “castigo por mau comportamento”, mas como a manifestação do cuidado que o Magistério pede à Teologia nas questões onde cada ponto e cada vírgula contam.
Jacques Dupuis faleceu em 2004, em Roma. Deixou à teologia depois dele as perguntas que soube reequacionar e para as quais corajosamente procurou balbuciar uma resposta, tocando humildemente o “mistério” que é o Amor transbordante de Deus por todos os homens e mulheres.

16 de dezembro de 2007

Padre António Vieira (1608-1697)



“Ter nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as acções, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o mundo.”

Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima (Lisboa, Capela Real, 1655)

“… não apenas um missionário empenhado da Companhia de Jesus, mas um orador de excepção, uma personalidade política de primeiro plano e o mais ilustre dos escritores portugueses do seu tempo.”
Eduardo Lourenço, Vieira ou o tempo barroco

O Padre António Vieira, apesar dos seus 400 anos, continua a fascinar e surpreender quem o aborda, quer seja pela sua biografia quer seja pelos seus escritos, uns e outros dotados de uma riqueza e uma força tão grandes como a sua ambiguidade.
Nascido em Lisboa, parte para o Brasil aos 6 anos onde entra na Companhia de Jesus. Dedica a sua vida à evangelização dos índios, entrecortada por missões diplomáticas conferidas pelo rei de Portugal, que o levam a cruzar 6 vezes o Atlântico, pregar nos palácios e igrejas de Lisboa a Roma. Enfrenta as guerras de religião que ensombram a conquista do Mundo Novo e conhece os calabouços da Inquisição em Coimbra sempre com a mesma energia, nascida do sonho que urge concretizar.

A sua vida e obra surgem-nos marcadas por uma profunda tensão. Tensão, primeiro, entre o apóstolo das letras e o diplomata-político, tensão entre o tempo dos homens e o Tempo de Deus, onde se cruzam e diluem a instauração do Quinto Império e o advento do Reino. A sua missionação e pregação transparecem simultaneamente a preocupação optimista pela defesa e promoção dos índios face aos abusos da colonização e o pessimismo barroco do imperialismo português decadente.
Neste paradoxo, o Padre António Vieira encarna de forma particularmente viva, e por vezes exagerada, a máxima inaciana:

“Confia em Deus como se tudo dependesse de ti e nada de Deus, e empenha-te em mover todos os meios, como se Deus fizesse tudo e tu nada”.

[2008 - Ano Vieirino]

14 de dezembro de 2007

«É o brotar de uma Rosa pequena»

Um poema onde saboreamos a beleza do mistério da encarnação; uma música que nos prepara para o Natal.

Es ist ein Ros entsprungen

«É o brotar de uma rosa pequena,
Brota de uma tenra raiz.
Nos cantos antigos anunciada,
Fruto de Jessé prometido.
A rosa, pequena e frágil, abre-se à luz
Com o frio do Inverno
Na escuridão da noite

Rosa, tão pequena,
Enche-nos do teu doce perfume.
Com o teu brilho claro
Afasta a escuridão.
Verdadeiro homem e verdadeiro Deus,
Auxílio na nossa dor
Que vens para nos libertar
do pecado e da morte

Ó Jesus!
Que a tua ajuda nos acompanhe
Até à sala do banquete
Do Reino do teu Pai,
Onde para sempre te louvaremos
Senhor! É o que te pedimos»

Poema anónimo do século XVI

[ouvir]

12 de dezembro de 2007

"Vai a Igreja agir?"




No passado Domingo foi publicado no JN um artigo do P. Alfredo Dinis,sj, sobre a Carta de Bento XVI aos bispos portugueses. Se há quem pense que nós, Igreja, temos medo de colocar algumas questões, este artigo vai contradizer esses eventuais pensamentos... De facto, está na altura de reflectir, sim, mas também de "agir"...

"O texto da recente mensagem do Papa aos bispos portugueses tem sido interpretado de diversas formas. Muitos comentadores têm sublinhado o carácter crítico do texto papal em relação à Igreja portuguesa. Outros, incluindo os próprios bispos, vêem naquele texto um encorajamento que receberam para continuar um caminho de inovação que sempre desejaram percorrer, mas que encontra não poucos obstáculos. Independentemente das diferenças de leitura do texto, todos parecem estar de acordo com um facto os cristãos portugueses - leigos, bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas -, não podem continuar a trilhar simplesmente os caminhos do passado, a manter acriticamente as tradições dos seus antepassados simplesmente por serem tradições, a investir tempo, energias e dinheiro em manifestações de religiosidade que tocam quase só a esfera emocional, devocional e intimista, mas deixam intocada a dimensão da responsabilização pela transformação do Mundo, uma responsabilização que torne insuportável a existência da injustiça, da discriminação, da pobreza e da mentira."

"Algumas pessoas começaram já a perguntar vai tudo ficar na mesma, depois do discurso do Papa? Vai a Igreja agir? Quem vai fazer alguma coisa para que alguma coisa mude, realmente? Serão apenas os bispos? Serão apenas os padres? Se assim fosse, estaríamos a contradizer o Papa, que pede um maior envolvimento dos leigos na vida da Igreja. Há pois que fazer uma reflexão comunitária séria sobre a Igreja que somos e sobre a Igreja que queremos ser. Há decisões a tomar. Há mudanças que é urgente fazer. Há questões que não devemos recear levantar, pelas quais nos devemos deixar desafiar permanentemente. Por exemplo: [remeto para o artigo, porque são várias as questões colocadas pelo P. Alfredo].

Gostaria(mos) de ouvir/ler algumas opiniões. É importante que se diga, de forma construtiva, o que se sente sobre isto. Às vezes diz-se que a homilia ou acção deste ou daquele padre, ou religiosa, foi má, mas depois não há coragem para lho dizer pessoalmente. Só se pode melhorar com ajuda uns dos outros!


9 de dezembro de 2007




GERARD HOPKINS

POETA E PADRE JESUÍTA

(1844 | 1889)




Nasce em 1844, em Stratford, próximo de Londres. Cedo despertou para a poesia. Ainda criança, gostava de subir às alturas de um ulmeiro, que se encontrava no jardim de sua casa e daí contemplar a paisagem.

Aos dezoito anos entra em Oxford, em estudos clássicos. Esta universidade encontrava-se marcada por uma das suas mais controvérsias figuras, John Henry Newman, sacerdote Anglicano convertido à Igreja Católica. O ambiente controverso, as disputas religiosas que Hopkins foi encontrar em Oxford e a sua própria luta interior em busca de um sentido, levaram a que, também ele, se aproximasse da igreja de Roma. Isso acontece em Julho de 1866.

Depois da sua conversão escreve a seu pai: …não posso lutar contra Deus que me chama à sua Igreja.

É desta fase este seu poema:

And minor sweetness scarce made mention of:

I have found the dominant of my range and state –

Love, O my God, to call Thee Love and Love


Terminado o curso e depois de um longo processo de discernimento, entra no noviciado da Companhia de Jesus, em Setembro de 1868. Estudou filosofia e foi professor de retórica dos estudantes jesuítas (1873-1874). A sua técnica poética deve-se muito a estes anos como professor de retórica. No ano seguinte, em 1875, é enviado a estudar teologia no colégio de San Beuno na Costa de Walles. Diz ele que, esta foi a terra que mais o inspirou. É aqui que Hopkins escreve o seu grande poema: O Naufrágio do Deutschland. Há nove anos que não escrevia poesia.


THOU mastering me

God! Giver of breath and bread;

World’s strand, sway of the sea;

Lord of living and dead;

Thou hast bound bones and veins in me, fastened me flesh,

And after it almost unmade, what with dread,

Thy doing: and dost thou touch me afresh?

Over again I feel thy fingerand find thee.

(The wreck of the Deutschland, part the first, 1)


Gerard Manley Hopkins foi um inventor que revolucionou a linguagem poética, um dos precursores das rebeldias estéticas dos modernistas. O poeta-jesuíta não conheceu a fama em vida. A sua poesia chegou até nós graças a Robert Bridges, seu grande amigo.

Morre em 1889, com quarenta e cinco anos. Na Abadia de Westminster foi colocada uma lápide sua, entre os grandes poetas ingleses.

5 de dezembro de 2007

Teilhard de Chardin (1871-1955) - visionário silencioso

1. Um homem surpreendente. Um dos aspectos que mais surpreendem em Teilhard de Chardin é o facto de ele não ser considerado, nem a si mesmo se considerar, filósofo ou sequer teólogo. Identificava-se mais como cientista. O facto é que hoje ele não é considerado um nome de referência nem em filosofia, nem em ciência, nem em teologia. E no entanto, os seus escritos continuam a atrair um enorme interesse, precisamente porque neles se encontram em diálogo estas três áreas do saber humano.

2. Um visionário. Teilhard, visionário silencioso, ousou fazer aquilo que está hoje ainda largamente por fazer: a integração das descobertas científicas contemporâneas nos discursos filosófico e teológico. A perspectiva evolutiva não apenas da vida mas de todo o universo abriu-se-lhe diante dos olhos como uma revelação, a revelação de um mundo que deixava de ser estático para se revelar num extraordinário dinamismo. Foi como se todo o universo que durante milénios foi representado como uma pintura definitiva, acabada e inerte, passasse a ser um filme cheio de acção e movimento.

3. Consequências. Para Teilhard, esta visão não podia deixar de ter consequências filosóficas e teológicas. As tradicionais categorias metafísicas estáticas nas quais se baseava uma teologia igualmente estática, pareceram-lhe como que retiradas do grande quadro final de uma aventura que durara apenas seis dias, os dias da criação, e que chegara ao fim no sexto dia. Tudo desde então permanecera substancialmente idêntico, imutável. Pelo contrário, a ciência revelou a Teilhard um mundo em evolução. Por outro lado, se Deus não se limita a olhar o mundo como um mero espectador, mas se envolve na história desse mundo, então já não podemos acreditar num Deus metafisicamente imutável. E o significado da incarnação de Cristo assume uma dimensão cósmica, não se limita ao planeta Terra – um grão de areia no universo. A história da criação do mundo tinha que ser contada desde o início em termos radicalmente novos. A criação de Adão e Eva e a narração do pecado original com base numa leitura literal do Génesis tornaram-se insustentáveis.

4. O que aconteceu a Teilhard? As suas propostas são de tal modo radicais que nunca pôde publicá-las em vida. Só a partir da sua morte os textos que deixou inéditos têm sido objecto de sucessivas edições em praticamente todas as línguas. E no entanto, esses textos estão oficialmente desaconselhados. Em 1962 e novamente em 1981, a Congregação para a Doutrina da Fé confirmou o carácter pouco ortodoxo dos textos de Teilhard. É verdade que desde Paulo VI todos os Papas têm citado passagens das suas obras. Mas também é verdade que a teologia católica não está ainda preparada para incorporar os dados da ciência contemporânea no discurso teológico, nem a aceitar todas as consequências dessa incorporação, tal como procurou fazer Teilhard. Quando uma tal incorporação – necessária e urgente – se fizer, o cristianismo aparecerá aos olhos da humanidade como um visão do universo e da vida verdadeiramente fecunda amadurecida e credível.

4 de dezembro de 2007

Pensadores e artistas com a marca SJ









Inácio, homem lúcido e de horizontes largos percebeu, logo após a sua conversão, como era importante compreender bem o complexo mundo em que vivia para melhor poder responder aos seus desafios, de tal maneira que decide, aos trinta anos, juntar-se às crianças que começavam a aprender os rudimentos de Latim para iniciar o seu percurso académico. Anos mais tarde, a própria Companhia de Jesus viria a ser sonhada por Inácio e seus companheiros na cidade de Paris e em ambiente Universitário. “Desde então foi característicos dos jesuítas manter numa tensão criativa este requisito inaciano: usar todos os meios humanos, ciência, arte, instrução, virtude natural, enquanto ao mesmo tempo se confia totalmente na graça divina” (CG XXXIV, Dec 26).
Julgo que não é possível olhar sem espanto os quase 500 anos da Companhia de Jesus. Não me parece exagero afirmar que não houve canto onde não tivessem chegado. Não só geograficamente, mas também no vasto e complexo universo do saber e da cultura. Acreditando poder “amar a Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus”, os jesuítas têm dado contribuições significativas não só no campo da teologia, mas também na filosofia, na literatura, na matemática, na física, na astronomia, na arquitectura, na música, na tecnologia…
Nas próximas semanas vamos dar a conhecer alguns pensadores e artistas que têm em comum o facto de serem jesuítas - Teilhard de Chardin, Jacques Dupuis, Lonergan, Gerard Hopkins, Domenico Zipoli, Francisco Suárez, entre outros. Às Quartas-feiras e Domingos neste blog.

3 de dezembro de 2007

451 AfterXav

Há vidas que nos deixam de boca aberta. A de S. Francisco Xavier, que hoje celebramos, é uma delas. Estudante estrela na Universidade de Paris, Xavier encontra Inácio, que o leva até Jesus – “de que vale ganhares o mundo inteiro se vieres a perder a tua alma?”. Completamente apaixonado por Cristo, Xavier abandona um futuro promissor e atreve-se a sonhar com a Companhia de Jesus juntamente com os primeiros companheiros. Numa disponibilidade e entrega totais, parte para o Oriente, onde durante anos percorre distâncias imensas para levar o Evangelho aos locais mais recônditos. Chega ao Japão, onde lança as bases da Igreja Japonesa. Morreu de exaustão e só na ilha de Sanchoão, às portas da China, faz hoje 456 anos.

30 de novembro de 2007

"Porquê Deus se temos a Ciência?"

Hoje assisti na Faculdade de Filosofia do Pólo de Braga da Universidade Católica a um colóquio sobre fé e ciência. Enquanto ouvia as brilhantes comunicações, que abordaram o tema desde ângulos muito diversos, fui eu próprio reflectindo um pouco sobre a minha própria experiência religiosa em confronto com a experiência de alguns anos de investigação em Física Teórica de Partículas.
Confesso que não me revejo no Deus cuja inexistência muitos ateístas, nomeadamente cientistas, tentam a todo o custo provar. O Deus que os neurocientistas procuram no cérebro humano não passa, na minha opinião, de uma caricatura. Pergunto-me, de facto, porque razão a experiência religiosa ou a palavra Deus evoca quase imediatamente vozes, visões, estados extáticos, milagres, sinais, velinhas e incensos… Eu acredito em Deus e posso assegurar que não tenho visões, nem alucinações, não ouço vozes, nem levito ou saio de mim mesmo quando rezo… Aliás, na maior parte das vezes que alguém falar em visões é para desconfiar. Lembro-me que há alguns anos atrás o P. Carreira das Neves comentava numa conferência que às freiras velhinhas que na confissão lhe vinham falar de visões ele respondia : “Já estás linda!”. Também Santo Inácio, ele próprio um místico, desconfiava de orações muito arrebatadoras. Quando numa ocasião lhe apresentaram alguém que supostamente seria uma pessoa de muita oração afirmou “será de muita oração se for de muita abnegação”. E o P. Nadal, um jesuíta da primeira geração, comentava que de tudo o que se passa na oração só 90% tem origem em Deus.
A presença de Deus no mundo tem muito pouco a ver com misticismos e esoterismos. As marcas da sua presença são, aliás, bem mais visíveis. Quando alguém se entrega de corpo e alma à construção de um mundo mais justo por causa de Deus deixa uma marca que é bem visível. Se alguém quiser encontrar Deus no meu cérebro talvez devesse colocar os eléctrodos na minha cabeça cada vez que sinto o desejo de assumir com garra a minha vida e fazer dela algo que valha a pena, ou cada vez que me deixo espantar por um Universo que não pode caber na minha compreensão, ou simplesmente quando me invade a alegria de acreditar, sem mais, que vale a pena viver…
Que a(s) teologia(s) cristãs devam integrar as evoluções da ciência é para mim evidente. De facto, a fé tem sobretudo a ver com o sentido da existência (da minha, da humanidade, do Universo), mas da existência real. E o objectivo da ciência não é mais do que ajudar-nos a conhecer mais profundamente a realidade. A ciência, se é ciência, não porá em causa uma teologia que seja teologia, antes contribuirá para a purificar e para evitar a alienação. Alienação, aliás, que é um perigo que espreita também a ciência. De facto, uma ciência debruça-se sempre sobre uma porção ínfima (não necessariamente do ponto de vista espacial) da realidade, isolando-a tanto quanto possível para descomplexificar os problemas que tenta resolver. Ao fazê-lo, porém, perde a visão de conjunto. Ou seja, se há alguém que põe palas é o cientista que mergulha no seu laboratório. Porque, se quiser olhar a realidade como um todo, procurando o seu sentido, a sua causa e o seu destino, dificilmente o fará sem entrar no domínio da religião. Claro que poderá sempre dizer que não lhe interessam as questões existencialistas, mas a isso eu chamo fuga e falta de audácia. A atitude do homem crente, pelo menos se acredita num Deus que não é uma caricatura, é a inversa – olha a mesma ínfima porção de Universo que o cientista, mas tem a consciência que esta se integra num horizonte muito mais vasto que encontra em Deus um sentido.
Termino citando o P. João Resina Rodrigues, padre católico e que ao longo de várias décadas aprendeu a conciliar fé com ciência e que resume de forma simples e directa o papel das ciências e o papel das religiões: “Kant diz três coisas fundamentais: o que posso saber, o que devo fazer, o que me é lícito esperar. E achou que a primeira depende da ciência (…) Uma coisa é tentar compreender o Universo. Para isso há a física e a biologia. Se quero saber se houve ou não big bang, se a vida evoluiu ou não, não pergunto à Bíblia, não pergunto à Igreja, que não tem competências nessa matéria. A segunda questão é o que devo fazer, como se deve viver para ser homem. Pergunto à história, às culturas, às religiões. A terceira pergunta é o que me é lícito esperar, qual o sentido de fundo disto tudo. Aí, encontro a questão de Deus.” (inViragem, revista do Metanóia, nãoº 55 – 56, Janeiro – Agosto 2007).
Em jeito de provocação, e citando o título da comunicação do P. Alfredo Dinis, deixo uma interrogação que talvez possa dar o mote a cenas dos próximos capítulos: “Porquê a ciência se temos Deus?”

27 de novembro de 2007

Em Igreja


Aproveitando a boleia do Paulo, com o seu "Pensamentos Soltos...", também eu escrevo um pequeno texto a propósito do discurso do Papa Bento XVI aos bispos portugueses. Confesso que me deixa um pouco perplexo o espanto que as palavras do Papa provocaram. Justamente porque não dizem nada de novo. Repito, o Papa não diz nada que possa surpreender um católico português responsável e informado. Talvez seja este, aliás, um dos problemas da nossa forma de estar em Igreja. Estamos à espera que o Papa, os senhores bispos e os senhores padres nos digam se a barca mete água ou não, em vez de cairmos na conta de que comunidade cristã precisa do empenho de cada um. Como diz o Papa, "todos somos responsáveis pelo crescimento da Igreja".
E porque não começarmos nós próprios por fazer um exame sobre a forma como construímos a nossa comunidade e sobre como a nossa comunidade se insere na sociedade? Porque não falarmos mais vezes uns com os outros sobre as dificuldades que sentimos? ”Lembrei-me que podia propor um exame em cinco passos decalcado do exame de consciência quotidiano proposto por Sto Inácio de Loyola. Cá vai:

1. Dar graças. Não adianta olhar a Igreja e a nossa comunidade com o sobrolho franzido e como se a Igreja a todos devesse e a ninguém pagasse. Pelo contrário, se queremos falar da Igreja comecemos por dobrar e língua e dar graças. É imenso o que a nossa Igreja portuguesa e cada uma das suas comunidades ofereceu durante séculos ao nosso país, às nossas cidades e aldeias, a cada um de nós e a tantos quer nos precederam na fé. Agradeçamos porque a Igreja, apesar das suas fragilidades, continua a lembrar ao mundo o nome de Jesus e a semear a Sua Palavra, a perdoar pecadores, a consolar quem anda triste, a partilhar com os que têm menos e a curar quem está doente. Enquanto não sentirmos profunda gratidão não adianta passarmos adiante – não conseguiremos ser objectivos nem lúcidos.

2. Pedir luz. Para falar da Igreja não podemos seguir apenas os critérios humanos. É com os olhos postos em Jesus que podemos tomar o pulso às nossas comunidade para perceber se nas suas artérias é o Evangelho que corre. Não adianta muito falar em números, em poder, em actividades que dão nas vistas. São o serviço, a fé, a esperança, o amor sincero aos mais frágeis, e aos pobres, a denúncia da injustiça que nos devem servir de referência.

3. Examinar. Ou seja, olhar a nossa comunidade com olhos de ver e tentar perceber em que aspectos podemos crescer. Deixo uma pista retiradas da mensagem do Papa:
É preciso construir “caminhos de comunhão”, afirma o Papa, “é preciso mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II”. Tiro certeiro. As pessoas que frequentam as nossas comunidades conhecem-se? Somos responsáveis uns pelos outros, ou limitamo-nos a ir à missa como quem vai ao cinema, incapazes de perceber que ao lado pode estar alguém que sufoca de tristeza? A forma como partilhamos os nossos talentos e bens interpela quem não acredita?

4. Pedir perdão. Ficar-nos-ia muito bem se nós, cristãos, reconhecêssemos com humildade que são muitas as vezes que erramos. Talvez devêssemos pedir perdão a Jesus sobretudo pelas vezes que Ele gritou pela nossa ajuda e passámos indiferentes em correrias sem sentido, convencidos que somos bons católicos porque afinal até vamos à missa ao domingo.

5. Propor emenda. Não adiantam discursos e exames se tudo ficar na mesma. São precisos passos concretos e muita imaginação. Vistas largas. No local onde vivo e trabalho sou presença da comunidade. E em tudo o que fizer deixarei a sua marca.

(Fotografia de Francisco Campos no AfterXav 05, actividade organizada pela Província Portuguesa da Companhia de Jesus em Dezembro de 2005 e que reuniu em Coimbra cerca 600 jovens)




26 de novembro de 2007

São João Berchmans, SJ


Hoje, a Companhia de Jesus celebra um santo que nos é particularmente especial aqui em casa. São João Berchmans, o nosso padroeiro.
Nasceu em Diest, na Bélgica, em 1599. Entrou na Companhia com apenas 17 anos. Contudo, o seu sonho de anunciar o Evangelho na China terminou muito cedo, com uma forte infecção pulmonar, contraída durante os seus estudos em Roma. Morreu a 13 de Agosto de 1621.
Era um homem inquieto, que nunca deixou de procurar Deus. Gostei de ler alguns excertos das suas cartas, que a liturgia de hoje nos oferece.
«o Senhor bate à porta do meu coração. Nenhuma outra ideia me ocorre, quer durante o estudo, quer durante o descanso; nada mais me vem à mente quando passeio ou me ocupo em qualquer outra coisa; nenhum outro pensamento me assalta senão o de examinar o estado de vida que devo escolher»
«O meu espírito e o meu coração não têm paz enquanto não encontrarem Aquele a quem amam».

22 de novembro de 2007

Pensamentos Soltos...






Só neste fim-de-semana passado tive oportunidade de ler com calma a carta que Bento XVI escreveu aos nossos bispos. Para mim, alguns pontos apresentados pelo Papa não são novidade. De facto, a fé portuguesa anda muito centrada em santos e santinhos, gerando confusões no pensamento sobre isto da religião e da fé. Sem querer cair no perigo da generalização, é notória a cada vez maior desvalorização da celebração dominical e tudo o que está ligado com a Igreja, na sua dimensão comunitária. De que me serve ir todos os anos a Fátima, por exemplo, se isso em nada contribui para uma mudança da minha relação com a comunidade? Até mesmo com Jesus? Maria tem um papel importante enquanto imagem da humanidade que dá o sim à divindade, mas ela não é a divindade.

Também por pensar sobre isto, graças ao que vou escutando nas várias conversas que vou tendo, percebo que tem de começar a haver um questionamento sério sobre o que se prega, anuncia (ou não anuncia), deitando abaixo a imagem clericalista da Igreja. Muitas vezes, em Igreja pergunta-se, “porque é que já não vêm ter connosco?”. Para mim uma pergunta que já demonstra preocupação, mas ainda é voltada para dentro. A meu ver, juntamente com esta questão deve surgir outra: “o que é que nós, Igreja, estamos, ou não estamos, a fazer que provoca este afastamento em relação a nós?”. Penso que Bento XVI também está a colocar esta última questão aos Bispos. Afinal, andamos a centrar a fé nas romarias e não na Pessoa de Jesus. E conhecer a fundo Jesus Cristo não é, de todo, perdoem-me a expressão, esfregar as mãos nesta ou naquela imagem em busca do milagre, ou sabe-se lá do quê. A Teologia é bastante mais séria e a busca da relação com Deus traz muitas responsabilidades. Tem de se perder o medo em partir estruturas antigas e olhar às novas respostas para os dias de hoje. De facto, vinho novo em odres velhos, já se sabe o resultado.

Penso que se ganharia muito mais em começar a escutarmo-nos uns aos outros, em escutar os sinais dos tempos. Há tanto bem na Igreja, que acaba por ficar abafado por mesquinhices que não têm interesse nenhum. De que me serve anunciar que “Jesus é amor” se isso não é vivido? De que serve estar a dizer às pessoas para vir à Celebração Dominical, se não se explica, na medida do possível, o que se passa naquele momento? Não faz sentido ir à Missa por obrigação... Faz sentido quando busco uma relação...

A formação é cada vez mais importante. E começaria pelos padres, diáconos, catequistas. Sair de paradigmas antigos e entrar em pleno, por exemplo, na grande mensagem de esperança do Concílio Vaticano II. Há dias comentaram-me que a Igreja deixou de evangelizar há 1700 anos atrás, quando saiu das catacumbas, porque a partir desse momento deixou de propor, para passar a impor. Tenho noção de que este pensamento pode ser redutor, mas tem o seu quê para reflectir. Jesus veio anunciar a Boa-Nova, tendo sido muito duro perante as atitudes dos fariseus que impunham as suas doutrinas. Afinal, a libertação do ser humano passa por uma relação de esperança e verdade diante de Deus e não de medo, como se de um tirano tratasse. E esta relação tem de ser livre, no sim que é dado a quem ouve e vê Jesus. Ora, nós crentes, temos de ser os primeiros a dar o exemplo do acolhimento, do não julgamento. Sei que me torno repetitivo sobre este ponto, mas a experiência vai-me confirmando esta posição.

Se Bento XVI pede para nos centrarmos em Jesus, torna-se evidente, pelo menos para mim, que temos de voltar o nosso olhar para o Mistério da Encarnação. Não estou a ver Deus encarnar por um capricho, mas sim por este profundo desejo de integrar toda a humanidade na sua divindade. E isto vive-se em comunidade, na relação comigo, com os outros e, sobretudo com Jesus, Deus encarnado. Isto é mesmo muito sério…

21 de novembro de 2007

Procurando o meu Princípio e Fundamento

Com tudo o que de bom a minha vida possa ter, estando eu a viver em Braga, o que me faz estar aqui a estudar… Filosofia… na Universidade Católica?

O que desejo para a minha vida? Que sentido lhe quero dar? Questiono-me a fim de não me perder com o que, no fundo de mim, considero secundário, mas que por vezes, tendo a esquecer! Perdendo o centro… sei que resvalo. Não é tanto pelo receio de cair, que também tenho, mas por temer desencontrar-me com o sentido no meu existir.

A resposta mais verdadeira que posso receber vem da relação com Deus.

Não quero desviar o meu olhar do Teu! Aí encontro-me. Contigo, sou. Com mais ninguém consigo ser eu, apenas aparência de mim. Contudo, a Teu lado, não quero ser outro, senão eu, uma vez que reconheço-me mesmo Amado por Ti, como eu sou.

Agora, focado na relação conTigo, relembrando-me do que me faz estar em Braga, posso ir tomar o pequeno-almoço com serenidade, e deixar escapar uma gargalhada interior. Só sou peregrino quando sei para onde vou!

Onde me queres levar, Senhor? Seguindo-Te, não me poderei perder (Diário Espiritual Sto Inácio Loyola)

16 de novembro de 2007

Sugestão de leitura II


Livro: "Rezar com o Padre Arrupe"
Selecção e adaptação: José A. García, S.J.
Colaboração: Ignacio Iglesias sj, Veridiano Léon sj
Editorial A.O. – Braga
ISBN 978-972-39-0680-6

Neste livro recolhem-se orações do P. Pedro Arrupe, S.J., que foi Superior Geral da Companhia de Jesus entre 1965 e 1983. Não se trata de textos para ler, mas de ajudas para rezar, ao jeito do P. Arrupe, com simplicidade, confiança filial, naturalidade, quase como quem respira. Nada há de artificial nestas orações. Brotam da vida, elevam-se a Deus com toda a confiança e voltam à vida quotidiana, na certeza de terem sido atendidas. É assim a oração dos grandes orantes. Era assim a oração do P. Arrupe...

(texto retirado de www.webboom.pt)

14 de novembro de 2007

Hoje é dia de festa

Pedro Arrupe nasceu em Bilbau a 14 de Novembro de 1907, ou seja, há precisamente cem anos. Em 1923 partiu para Madrid onde estudou Medicina. Em Janeiro de 1927 entrou no Noviciado da Companhia de Jesus em Loyola, terra natal do fundador desta ordem religiosa, Sto. Inácio. Depois de alguns anos de formação em filosofia e teologia na Bélgica, Holanda e Estados Unidos, foi destinado à missão do Japão, para onde partiu em 1938. Durante 27 anos trabalhou neste país do Oriente. Aqui desempenhou vários cargos desde pároco, a mestre de noviços até provincial. Durante 33 dias foi preso sob suspeita de espionagem, viveu a primeira bomba atómica da história da humanidade, percorreu o mundo a contar a sua experiência e em 1965 foi eleito 28.º Superior Geral da Companhia de Jesus, cargo que exerceu até as forças o traírem no verão de 1981. Viveu uma década de limitação e doença até à sua morte em Roma no dia 5 de Fevereiro de 1991.

Não é certamente pelos seus 18 anos como Geral que aqui o recordamos, nem certamente pelo trabalho infatigável no Japão, nem ainda pelo seu desejo profundo de acabar com as injustiças no mundo. Arrupe foi muito mais. Evocamos o homem optimista, agarrado a uma esperança tão firme que nem a maior bomba da humanidade pôde afectar. O seu sorriso, que brotava atrevidamente nas adversidades, é o maior testemunho do seu jeito de caminhar. O seu segredo, esse não oferece dúvidas, “foi o meu ideal desde que entrei na Companhia, foi e continua a ser o meu caminho, foi e será sempre a minha força. Tirem Cristo da minha vida e tudo desabará como um corpo a que se retirasse o esqueleto, o coração e a cabeça.” Todavia não é Arrupe o protagonista desta história: é Jesus!

13 de novembro de 2007

Sugestão de leitura


LAMET, Pedro Miguel, "Pedro Arrupe - O polémico superior-geral dos Jesuítas. Da bomba de Hiroshima à crise do pós-Concílio", Braga/Coimbra, A.O./Tenacitas, 2005.

Pedro Arrupe foi alguém que atravessou com intensidade a segunda metade do século XX, deixando um rasto de esperança e oferecendo instrumentos para a construção de uma humanidade mais justa e solidária. Esta apaixonante biografia dá-nos conta do impacto deste polémico superior-geral dos jesuítas na Igreja Católica e na história do mundo.

Quando em 1965 Arrupe foi eleito superior-geral dos jesuítas, trazia na sua reduzida "bagagem" um relógio parado. Sim, Pedro Arrupe vivia em Hiroshima naquela hora em que rebentou a bomba atómica!... Este é o símbolo da sua história. Um choque, uma paragem, uma viragem que é um recomeço, uma hora nova. Qual é a fibra daqueles que se arriscam quando parece só haver ferramentas gastas?
(texto retirado de www.tenacitas.pt)

12 de novembro de 2007

O Noviciado segundo Arrupe





Hoje os jesuítas celebram Santo Estanislau Kostka, o padroeiro dos noviços.
Nasceu em 1550 na Polónia, no seio de uma família nobre. Em 1564 foi para Viana de Áustria cursar estudos clássicos. Cedo sentiu o desejo de entrar na Companhia de Jesus, contra a vontade de seu pai e irmãos. Fugiu de casa e foi a pé para a Alemanha e depois para Roma, onde acabou por entrar no Noviciado. Morreu em 1568, com fama de santidade, antes de completar o seu noviciado.

Este é um dia especial no noviciado, que celebra o seu padroeiro, e para a toda a companhia. Este homem é para nós uma fonte de inspiração, pela sua persistência e pelo apelo fortíssimo que o moveu a entrar na Companhia contra a vontade de muitos que lhe eram tão queridos.

Recordo-me do meu noviciado, concretamente de um texto do Padre Arrupe que lemos e rezámos logo na primeira provação. Nele, Arrupe procurava mostrar a importância do noviciado enquanto a base de toda a formação jesuítica.

O Noviciado é um tempo onde nos retiramos para podermos experienciar Deus. Uma experiência individual de Cristo, através da oração que se torna uma necessidade do nosso dia à dia. Um tempo para aprofundar o carisma inaciano e entrar no «nosso modo de proceder», «sentir-se pedaço da Companhia». Um tempo onde deixo de ser «eu e a Companhia, mas eu que sou da Companhia, sentindo-me identificado com ela».

Um tempo para me conhecer melhor a mim próprio. Saber quem eu sou na relação com Deus e com os meus companheiros, que também me formam a mim como jesuíta. Só assim poderei saber o que Deus quer de mim.

É uma carta muito inspiradora que termina com o optimismo a que Arrupe nos habituou:

«São palavras de vida eterna. É uma vida ideal. Ser Jesuíta não é algo trágico. Pelo contrário, é algo que dá satisfação, satisfação que nasce por dentro. Daí a necessidade da formação espiritual, do amor a Cristo, do amor à Companhia, do sentido apostólico, da universalidade, do serviço à Igreja e do sentir com a Igreja».

o sorriso do P. Arrupe


Do P. Arrupe já muito se disse e escreveu e continuará a escrever. Tendo-o conhecido pessoalmente em Roma, durante os meus estudos de Teologia, temo que nos esqueçamos de referir o seu belo sorriso que revelava e comunicava uma grande serenidade. Sabendo nós que ele foi Superior Geral da Companhia de Jesus numa época particularmente difícil, e que as suas posições proféticas lhe traziam muitas críticas de autoridades da Igreja, juntamente com muitos louvores de quem o ouvia e conhecia de perto, aquele seu sorriso só poderia significar que ele estava em Deus e era do ponto de vista de Deus que avaliava as pessoas e as situações. Também esta sua maneira de estar na vida pode ser para nós uma lição que nos reconduz ao essencial. Tal como a irmã de Marta, o P. Arrupe escolheu a melhor parte, e por isso soube evitar as inquietações e agitações pelas quais tantos de nós ainda nos deixamos dominar.

P. Alfredo Dinis,sj

11 de novembro de 2007

"Sou surdo, padre..."


O padre Arrupe tem histórias espantosas. Sempre que ouço alguma, há uma coisa que não posso deixar de reparar: são histórias com pessoas!

Sim, o padre Arrupe podia ter sido só um grande estratega, óptimo a distribuir jesuítas pelas partes do mundo mais necessitadas, um negociador politicamente hábil e reconhecido. Mas a verdade é que, muito mais do que um “homem de negócios”, o padre Arrupe impressiona pelo trato pessoal, pela estima que tem a cada pessoa que conhece, pela simplicidade dos seus gestos pequeninos.

A história que mais me impressiona no padre Arrupe passa-se no Japão. Mestre de noviços, nunca deixou de ter tempo para ensinar catequese às pessoas mais simples. Conta-se que, durante seis meses, assistia pontualmente a essas catequeses um ancião japonês, que se limitava a fixar Arrupe nos olhos. Ao fim de seis meses, intrigado, o padre Arrupe resolveu-se, finalmente, a falar com o ancião e a perguntar-lhe o que achava de tudo aquilo que ele tinha vindo a ensinar. “Sou surdo, padre – respondeu. Olhei-o sempre nos olhos. O senhor não mente. No que o senhor crê, eu também creio”.

Não, não era uma questão de gestos, palavras ou obras: Arrupe era maior do que tudo isso! O brilho que trazia nos olhos falava, sem que fosse preciso dizer nada, do seu Senhor Jesus e de quanto a relação com Ele era importante. "Olhei-o sempre nos olhos. O senhor não mente."...

Somos cristãos. O que é que os nossos olhos dizem ao mundo?

10 de novembro de 2007

Três Jesuítas falam do P. Arrupe.
(parte de um filme mais longo)

9 de novembro de 2007

Um novo caminho


Madrid, início dos anos anos 20, Pedro Arrupe é um estudante de medicina aplicado, vai com certeza tornar-se um grande médico. No seu tempo livre começa a visitar os bairros pobres dos subúrbios da capital espanhola...

No meio da vida universitária, Pedro interroga-se. "Comecei a perguntar-me cada vez com mais frequência: Para que vim ao mundo? Para viver uns anos num anonimato estéril e, depois, enfrentar a outra vida sem ter feito nada que valha a pena? Aquelas pobres crianças, marcadas por uma vida dura, abriram-me os olhos. Fizeram-me pensar. Despertaram em mim a ânsia das grandes aspirações, que até então tinha arrastado, perdido na corrente da inconsciência, e alertaram-me para o caminho descuidado da minha vulgaridade. Corria o risco de viver a mocidade sem elevação, mas porque Ele quis, consegui deter a marcha e escolher novos caminhos."

[contado por P. Lamet, em Pedro Arrupe, Ed. Tenacitas 2004]


A vida dste homem deixa-me a pensar também, o que faço com a minha vida? Lá no fundo, sei que ela só vale a pena ser vivida se for para os outros, se for para ser entregue, nas grandes causas e nas pequenas coisas do dia-a-dia... Mas estarei eu pronto, em cada dia, em cada manhã, a escolher este caminho de novidade?

Que fiz eu por Cristo? Que faço eu por Cristo? Que farei eu por Cristo?
S. Inácio de Loyola

8 de novembro de 2007

Outro "louco" como Tu







Senhor, dá-me o teu amor, que me faça perder a minha "prudência humana" e me leve a arriscar a dar o salto, como S. Pedro, para ir para Ti: não me afundarei enquanto confiar em Ti.

Não quereria ouvir: "Homem de pouca fé, porque duvidaste?". Quantos motivos teológicos, ascéticos, de prudência humana, aparecem no meu espírito e tentam demonstrar-me "sob aparência de bem" com muitas razões humana, que o que Tu me inspiras e pedes é imprudente: uma loucura.

Tu, Senhor, segundo isso, foste "o mais louco dos homens", pois inventaste essa insensatez da cruz.

Senhor! Ensina-me que essa insensatez é a tua prudência, e dá-me tal amor à tua pessoa para que seja eu também outro louco como Tu.

P. Pedro Arrupe,sj
Encontro com provinciais, México D. F., em Novembro de 1972


7 de novembro de 2007

Pedro Arrupe - 100 anos


Na próxima quarta-feira, dia 14 de Novembro, faz 100 anos que nasceu Pedro Arrupe, o Jesuíta Basco que foi Geral da Companhia de Jesus e que dá o nome à nossa Comunidade.

Há figuras que marcam a história. E Arrupe marcou profundamente a história da Companhia de Jesus, a história da Igreja e, atrevo-me a dizer, a história do mundo. À Companhia de Jesus devolveu o espírito de Sto Inácio, à Igreja ofereceu um Corpo para levar às comunidades cristãs os ventos frescos do Concílio Vaticano II, ao mundo gritou a esperança, guiando milhares de mãos no serviço aos mais pobres de um mundo profundamente marcado pela injustiça.

Queremos dar a conhecer este homem, cuja vida nos faz acreditar que vale a pena ser jesuíta. Durante os próximos 8 dias publicamos alguns traços da vida de um homem surpreendente, carismático, apaixonado e apaixonante, que continua a servir de modelo e inspiração para tantos que acreditam que o mundo pode ser melhor.

3 de novembro de 2007

estes dualismos que nos perseguem

Até que ponto os dualismos que utilizamos para pensar e ‘arrumar o(s) nosso(s) mundo(s) correspondem a realidades igualmente duais ou não passam de formas de entendermos o mundo e nos entendermos quando comunicamos? Correspondem apenas a uma realidade construída pelos seres humanos por uma questão prática ou de conveniência, ou correspondem a alguma realidade objectiva que se nos impõe? Poderemos dispensar esses dualismos? Se não, porquê? Se sim, com que consequências?Às quartas-feiras, das 18h às 19h, encontrar-se-ão na Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa quantos estiverem interessados nos debates que constituem um Seminário intitulado 'estes dualismos que nos perseguem'. Antes de cada encontro, poderá ser colocado no blog www.dualismos.blogspot.com um texto que estimule o interesse e a discussão que continuará depois no local dos encontros. Quem não puder estar presente poderá sempre entrar nos debates através do blog.

CORPO-ALMA O primeiro encontro do Seminário estes dualismos que nos perseguem terá lugar no próximo dia 14 na Faculdade de Filosofia, das 18h às 19h. Corpo-alma é o primeiro dualismo em análise. Alfredo Dinis, que animará o debate em torno deste dualismo deixa aqui um texto de Joseph Ratzinger retirado da obra Introdução ao Cristianismo, que servirá de referência para a reflexão, e sobre o qual se poderão desde já tecer considerações naquele blog, as quais serão tidas em conta durante o debate.

"A concepção grega parte do princípio de que o ser humano é formado por duas substâncias originalmente estranhas entre si, sendo uma (o corpo) perecível e a outra (a alma) imperecível, de modo que esta última continua a existir independentemente de qualquer outro ser. Na realidade, só a separação do corpo, que lhe é estranho, abriria à alma a possibilidade de ser ela mesma. O raciocínio bíblico, pelo contrário, pressupõe a unidade indivisa do ser humano, tanto assim que a Bíblia nem tem uma palavra para designar apenas o corpo (separado e distinto da alma); por outro lado, o termo ‘alma’refere-se, na grande maioria dos casos, ao ser humano inteiro, tal como ele existe com a sua corporalidade (…)A imortalidade não é fruto da evidente impossibilidade do ser indivisível para morrer, mas sim da acção salvadora do amante que tem o poder para o fazer: o ser humano já não pode findar totalmente, porque é conhecido e amado por Deus. Se todo o amor aspira à eternidade, o amor de Deus não só aspira a ela, como cria e é a eternidade (…)Ao contrário da concepção dualista da imortalidade, que encontra a sua expressão no esquema grego do corpo e da alma, a fórmula bíblica da imortalidade pretende transmitir uma ideia dialogal que abrange o ser humano como um todo: a essência do ser humano, a pessoa, continuará a existir; aquilo que amadureceu durante a existência terrena de espiritualidade corporificada e de corporalidade espiritualizada continuará a existir de outra maneira. E a sua existência prossegue porque vive na memória de Deus (…)‘Ter alma espiritual’ quer dizer exactamente ser querido, conhecido e amado de modo especial por Deus; ter alma espiritual significa ser-se alguém que é chamado por Deus para um diálogo eterno e que, por isso, é capaz, por sua vez, de conhecer Deus e de lhe responder. Aquilo a que, numa linguagem mais substancialista, chamamos ‘ter alma’, passamos a chamar, numa linguagem mais histórica e actual, ‘ser interlocutor de Deus’.(…)De resto, neste ponto mostra-se claramente que é impossível, em última análise, fazer uma distinção clara entre ‘natural’ e ‘sobrenatural’.

Joseph Ratzinger, Introdução ao Cristianismo,São João do Estoril: Principia, 2005, pp. 254-260.

31 de outubro de 2007

S. Afonso Rodrigues

Hoje a Companhia de Jesus celebra S. Afonso Rodrigues. Afonso nasceu em Segóvia em 1533 e entrou como Irmão na Companhia de Jesus em 1571, após a morte da sua mulher e dos seus filhos. Foi-lhe confiada a missão de ser porteiro em Maiorca, no Colégio da Companhia, onde morreu faz hoje 390 anos. Quando entrou no noviciado, alguém que perguntava para que servia este homem à Companhia recebeu como resposta que servia para ser santo. Deixo um breve excerto dos apontamentos espirituais de S. Afonso.

"O meu coração está cheio de ânsias e desejos de agradar a Deus, pelo grande amor que Lhe tenho, cortando comigo mesmo e com todas as coisas desta vida, para contentar a Deus. E como Ele vê os meus desejos, e trato com Ele e com Nossa Senhora, e só a Eles amo, e não quero amar senão o que eles querem, a Eles recorro, pondo-me a mim e a todas as coisas, minhas e dos outros, em suas mãos. Assim tudo corre bem e segundo a vontade de Deus."

26 de outubro de 2007

Partilhas...


Meu Deus,

faz brilhar diante de mim, na vida do outro, o vosso Rosto.

Essa luz irresistível do vosso olhar, acesa no fundo das coisas, já me lançou em toda a obra a empreender e em todo o trabalho a sofrer.

Concedei-me o favor de vos ver, mesmo e sobretudo, no mais íntimo, no mais perfeito, no mais remoto da alma dos meus irmãos.

Teilhard de Chardin,sj

24 de outubro de 2007

Os Sabores de Deus

A Bíblia conta-nos uma história de encontro entre Deus e um povo. Deus visita pessoas concretas, fala, convida, envia, faz alianças. A sua presença parece real, palpável, visível… Deus deixa-se ver, ouvir, tocar. É o responsável por feitos que todos podem testemunhar. E hoje? Onde está Deus? Porque não o podemos ver, porque não somos capazes de distinguir com nitidez a sua presença? Muitos dirão, desiludidos, que Deus se calou ou que simplesmente nunca existiu. Mas muitos outros continuam a testemunhar o encontro com o mesmo Deus que habitava com o povo da Bíblia. Onde fala Deus então? Como podemos encontrá-Lo, para que nos conte os segredos do Universo e nos mostre o sentido da nossa existência? Talvez a resposta possa desiludir e baralhar, mas Deus fala ao Homem nos seus próprios pensamentos e sentimentos. Era isto, julgo eu, que Jesus quis dizer quando afirmava que faria de cada pessoa a sua morada. Também S. Paulo dizia que somos templos do Espírito Santo. É pois na nossa vida e nos movimentos da nossa interioridade que podemos cruzar-nos com Deus. E como nem tudo o que sentimos vem de Deus, precisamos aprender a distinguir o Seu rasto – é o que em espiritualidade se chama discernimento. A presença de Deus tem sabor. Muitos sabores, que dependem da nossa circunstância pessoal. Mas há três sabores de Deus que são inconfundíveis: a fé, a esperança, e o amor. Parece, afinal, que Deus continua a deixar-se encontrar, mas talvez nos obrigue a usar o paladar.

21 de outubro de 2007

20 Outubro 2007 - Sé Nova de Coimbra

andreas lind antónio ary bruno nobre francisco martins pedro luz pedro silva vasco themudo

Chegados ao fim de dois anos de noviciado, decidimos fazer os primeiros votos na Companhia de Jesus. Fazer votos é decidirmo-nos a seguir um caminho radical que nos é proposto por Jesus: viver como Ele viveu, pobre, casto e humilde, sendo assim sinais do amor de Deus e construtores de um mundo mais justo. Os três votos religiosos são a expressão da entrega, total e livre, que desejamos viver.

Viver em POBREZA consiste em olhar para todas as coisas a partir de Deus e tê-l’O a Ele como única segurança. Num estilo de vida despojado e simples, pondo tudo em comum, comprometemo-nos com a justiça, ao lado dos mais pobres e esquecidos.

A CASTIDADE é a nossa forma de amar cada pessoa, com a máxima proximidade, de forma livre e gratuita e por isso sem exclusividade. Desejamos assim testemunhar o amor universal de Deus, saindo de nós próprios, em contínuo movimento e desinstalação.

Através da OBEDIÊNCIA procuramos fazer a vontade de Deus e não apenas seguir os nossos interesses ou apetites, dando espaço ao serviço e à humildade. A relação adulta e conversada com os nossos superiores torna-nos parte de um corpo, ao serviço da Igreja e do mundo.

Não fazemos os votos sozinhos, nem os fazemos para nós. São um meio e não um fim, o caminho que nos faz cada vez mais jesuítas. Queremos cada dia dizer “sim” à missão que Deus nos confia, certos de que só Ele é capaz dar a cada pessoa uma vida nova, cheia de esperança, sentido e horizonte...

17 de outubro de 2007

O Negociante de Pérolas

O cristão é… “semelhante a um negociante que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola” (Mt 13, 45-46). Hoje durante a oração pus-me a imaginar como haveria de responder a alguém que me perguntasse sobre o que significa ser cristão. Lembrei-me, quase imediatamente, da pequena história contado por Jesus sobre um negociante de pérolas que troca tudo o que tem pela pérola mais valiosa que encontrou. Parece-me que todo o ser-humano é um negociante de pérolas. Todos procuramos tornar algum sonho real, todos tentamos, de troca em troca, conquistar maior felicidade. E o cristão também. Com a diferença de que a pérola pela qual deseja trocar tudo é realmente valiosa. A sua ambição é de tal modo desproporcionada que pode chegar a parecer que despreza o mundo, a vida e os seus encantos. Realmente o cristão não sobrevive, vive. O seu horizonte não pertence ao tempo, porque está apaixonado pela eternidade. A sua casa não pode ser mais pequena que o mundo, porque deseja que debaixo do seu tecto caiba toda a humanidade. Não esgota a sua imaginação e as suas forças num projecto pessoal, porque não pode ser feliz sozinho. Procurar uma pérola de tão grande valor pode parecer insensato. Como sabemos, afinal, que existe tal pérola? Não sabemos, de facto, mas acreditamos que um Homem, chamado Jesus de Nazaré, ao morrer e ressuscitar, a encontrou.

10 de outubro de 2007

FÉ?

Quando se fala de fé vêm-nos imediatamente à cabeça mil e uma ideias - o Papa, a inquisição, a Igreja, as guerras religiosas, a compatibilidade com a Ciência, normas morais, polémicas entre políticos e representantes religiosos... Mas o que é afinal a fé? Qual é o seu núcleo essencial? No Evangelho da missa de hoje os discípulos pedem a Jesus que os ensine a rezar. E Jesus, fazendo eco da sua própria experiência, ensina-lhes uma oração muito simples que começa por "Pai Nosso". Julgo que estas duas palavras resumem o essencial da fé cristã. Acreditar é descobrir-me profundamente amado, é confiar que vale a pena acolher a vida mesmo apesar do meu sofrimento e das minhas fragilidades. Mas em Deus não encontro um Pai exclusivo. Deus é Pai de todos os que comigo partilham a existência humana, o que faz de cada pessoa um irmão. Depois de termos bem presente o essencial acho que tudo se pode discutir. Mas tendo a consciência de que pôr em causa a fé cristã não é lutar contra a Igreja ou contra alguma das suas posições, mas sim abdicar da convicção de que cada ser-humano tem lugar num mundo que podemos construir juntos.


9 de outubro de 2007

?Desiludido com Deus?


Só há duas razões para estarmos desiludidos com Deus: (1º) estou a querer d’Ele alguma coisa que me parece boa mas que, de facto, não é; ou (2º) estou a querer que Ele me dê uma graça quando eu quero e não quando Ele quer e sabe ser a melhor altura.

Assim, se estás desiludido, ou se achas que Ele não te ouve para um pouco e olha com cuidado para aquilo que desejas. Se não tens a certeza quanto ao que pedir pede o Espírito Santo (porque não será negado a quem o pedir com confiança). Se estás seguro de que pedes algo de verdadeiramente bom para a tua vida, confia e espera. Na altura em que produzir mais fruto o receberás!