28 de fevereiro de 2008

400 anos depois

“Um livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.”

(Padre Antonio Vieira – 2008 – Ano vieirino - 400 anos do seu nascimento)

24 de fevereiro de 2008

Samaritana


"Senhor, dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede"
Jo 4, 15

Corporeidade(s)...




[seda de Bruno Moniz, in: olhares.com]

Ontem fui ver o Scope, a última coreografia de Rui Horta. De facto, uma crítica à sociedade que vê o corpo como “carne para canhão", num aproveitamento sexual, quer do homem, quer da mulher. Aliado a esse aproveitamento, surgem outros inevitáveis, o das emoções e dos sentimentos. Quando entrei no espectáculo [interactivo com o público], tive a nítida sensação de ir directo ao meu pensamento… Corpo, relação, actualidade, filosofia, interacção, Relação, sociedade, amor, gritos, desejos, carne, vida, animalidade e humanidade, produto(s), sedução, Vida... Ser Humano!

De facto, sexo é bom! É capaz de haver quem não concorde no amplo universo de pessoas. Mas, de uma forma geral, tendo em conta o quanto o tema é explorado nas mais variadas áreas, é algo desejado, apetecível e com muita vontade de ter... Pois, ter! Ou então, para suavizar usa-se o “fazer amor”, para distinguir da mera relação carnal.

Vou tendo a sensação de que na actualidade desceu-se o pensamento para a zona da cintura. Vivo essa experiência quando comento que fiz Votos. Lá vêm as eternas questões: “o casamento dos padres”, “a igreja como castradora”, “a autoridade vigente na cama de cada um”. Confesso, por vezes já nem tenho muita paciência, sobretudo no que toca ao esclarecimentos sobre a questão da castidade, mas só pelo simples facto do tema ser logo abordado e, por vezes, de forma tão veemente torna-se evidente que é algo bastante central… Mesmo que se diga que não…

Daí, entre várias razões - tendo também presente a religiosa -, ter sentido a necessidade de me dedicar ao estudo mais a fundo do Corpo. Um dos meus últimos trabalhos de investigação foi sobre as dimensões da relação e da corporeidade no Ser Humano. Dei-lhe o título: Ser Humano: Ser Corpo em Relação. Será que nos conhecemos enquanto Corpo? E será que conhecemos a fundo a nossa dimensão corporal? E como é que vivemos a nossa relação uns com os outros?

E a Religião? Que tem com isto tudo? A meu ver bastante, para não dizer tudo! A Religião não é o afastamento do humano na transcendência, ou então, o simples respeitar de normas que vêm do alto. Cada um de nós está “re-ligado” a uma variedade imensa de situações e acontecimentos. No fundo, pensar a pessoa integrada e relacionada com o todo que é, nas suas várias dimensões: biológica, psicológica, sociológica, histórica e até mesmo religiosa.

Sinceramente, vejo cada vez menos separações nestas várias dimensões. Pelo facto de trabalhar o corpo nalguns dos seus aspectos – por exemplo, no filosófico, no artístico e no espiritual – percebo a importância que tem a vivência da nossa realidade pessoal no caminho de uma maior verdade. Na actualidade, com tantas possibilidades de desencontro, a pessoa deve chegar à individualidade de si própria, de modo a não ficar nem isolada, nem diluída na sociedade, curiosamente, bastante corporal.

O culto do corpo de modo a imitar esta ou aquela pessoa mais conhecida leva a que se queira tornear muitas vezes a imagem que a própria pessoa tem de si. A imposição de parâmetros que a sociedade vai colocando obriga a um desfasamento corporal muito grande, por vezes até impossível de alcançar. Ouvindo por vezes esta afirmação: “O meu corpo [como se fosse algo material] não faz parte de mim”, fico a pensar como andará o entendimento do que significa passar por um reconhecimento de quem se é.

Penso na sociedade actual, na qual, em cada vez mais situações, devido à competitividade atroz, a pessoa ou se assume como a única e tenta eliminar quem lhe faça frente, ou então se vai anulando, perdendo muitas vezes o sentido para a vida. De facto, cada sujeito é único, não podendo ser comparado enquanto ser com outro, mas é na relação que poderá encontrar o equilíbrio da reciprocidade.

É notório o desequilíbrio a vários níveis que vivemos socialmente. A superficialidade com que nos deparamos não leva ao fundo, às bases, aos fundamentos, da nossa realidade, quer pessoal quer social. Como resultado as relações humanas tornam-se também elas superficiais, ao ponto do sexo ser algo adquirido. Toma lá, dá cá. O prazer torna-se efémero e imediato, numa mera satisfação da libido. Em que o Corpo, afinal, se torna um mero instrumento de prazer… Como vejo o ser humano como sagrado, tê-lo como objecto, seja ele de que tipo for, é algo que me faz alguma confusão. Daí perceber que, mais do que rotular seja quem for, ou o que for, é necessário olhar e encarar com seriedade sobre estas dimensões tão básicas da realidade humana…

Com tudo isto, devo dizer que não defendo a anulação do sexo, muito pelo contrário. A minha decisão de ter feito o Voto de castidade está ligada com a minha vocação. Não me sinto, nem pouco mais ou menos castrado. No entanto, isto não me leva a pensar no sexo como mau, isso seria de todo incoerente com o meu pensamento. Como acima afirmei, sexo é bom. Agora, que seja algo que contribua para a profundidade da relação entre duas pessoas. No fundo, não ser a porta de entrada da relação ou de um aproveitamento, mas, em cada momento de encontro ser, mais do que genital, um clímax sexual, por envolver a totalidade das pessoas em relação. Se assim for, o sexo vivido como a unificação por Amor entre duas pessoas, não tenho dúvidas, é religioso.


21 de fevereiro de 2008

Há oito dias atrás, mergulhados no silêncio,
renovámos os votos de:
pobreza, castidade e obediência.


Vocação: Testemunho de uma vida feliz e não propaganda



Hay muchos asuntos tratados en la Congregación General que no se traducirán en decretos. La Compañía busca tomar el pulso así a determinados aspectos de la misión que son trabajados por un grupo de expertos y posteriormente discutidos en el aula de la Congregación.

Uno de los temas ha sido la promoción de vocaciones y sobre ello hemos estado hablando con el Padre Carlos Carneiro, actual maestro de novicios de la provincia portuguesa.

El P. Carneiro se ha dedicado al mundo de las vocaciones durante toda su vida como jesuita – “ha sido mi china desde que llegué a la provincia,” bromea – y destaca tres principales aspectos de la Compañía que resultan hoy atractivos para la gente joven. Lo primero es la amistad entre los jesuitas, “los jóvenes se entusiasman al conocer a este cuerpo de amigos en el Señor, capaz de amar, soñar, y vivir juntos.” La capacidad de juntar profecía y profundidad también es un gran reclamo para quienes hoy buscan por dónde formular su “algo más” en la vida. El P. Carneiro lo apunta como “trabajar desde dimensiones de denuncia, profecía, novedad, e incluso riesgo… pero al mismo tiempo con profundidad y calidad.” Otro rasgo importante hoy es nuestro ser hombres de Dios enraizados en el mundo, queriendo amar el mundo “casi tanto como Dios lo ama.”

Ayudaría mucho a la promoción de vocaciones, dice Carlos, “no hacer propaganda, sino dar un testimonio claro de una vida feliz, no sin dificultades.” Acerca de las formas insiste en que “no se trata de pescar, sino de sembrar,” en un trabajo de acompañamiento y seguimiento que hoy más que nunca es absolutamente personal e individual. Es importante también reconocer que no se trata de un trabajo sólo de unos pocos responsables, sino de una dimensión que envuelve a todo el cuerpo de la Compañía. Ayudaría mucho a la promoción el que todos asumiéramos esta corresponsabilidad.

Trabajar en vocaciones supone reformular continuamente la esencia de nuestro ser Jesuitas. Para el P. Carneiro se trata de un innegociable amor a Jesús, complementado por una castidad para ser vivida con la gente, una pobreza que lleva a la sencillez, y una obediencia que permite vivir la libertad. Nuestro carisma, dice Carlos, es estar en las fronteras de un modo cualificado, y ser universales “no sólo por estar en muchas partes, sino principalmente por estar con la mente abierta y el corazón en Dios.”

Ouça a entrevista audio

20 de fevereiro de 2008

Falamos Sobre Física?

“A imagem científica do mundo é muito deficiente. Proporciona uma grande quantidade de informação sobre factos, reduz toda a experiência a uma ordem maravilhosamente consistente, mas guarda um silêncio sepulcral sobre […] tudo o que realmente nos importa. Não é capaz de dizer-nos uma palavra sobre o que significa que algo seja vermelho ou azul, […] não sabe nada do belo ou do feio, do bom ou do mau, de Deus e da eternidade. Por vezes a ciência pretende dar uma resposta a estas questões, mas as suas respostas são frequentemente tão tontas que nos sentimos inclinados a não as levar a sério […]. A música é capaz de explicar minimamente porque nos deleita a música, ou porque pode uma canção antiga fazer com que nos saltem as lágrimas […].
Abstém-se também de se pronunciar quando aparece a questão da Grande Unidade – o Uno de Parménides – do qual de algum modo todos somos parte […]. Nos nossos dias o termo mais comum para o designar é Deus – assim, com maiúscula –. Em geral a ciência proclama-se ateia, o qual não resulta assombroso, depois de tudo o que acabamos de dizer. Se a sua imagem do mundo não contém sequer o azul, o amarelo, o amargo, o doce, nem a beleza, o prazer ou a pena, se a personalidade é por ela excluída, como poderia conter a ideia mais sublime que pode conceber a mente humana?”

Erwin Schrodinger (1887-1961), prémio Nobel da Física em 1933

19 de fevereiro de 2008

Estes cromos que nos perseguem I : A Mitra


A mitra é um utensílio utilizado por bispos, arcebispos, abades e até pelo próprio Papa, que simboliza uma defesa da inteligência contra os inimigos da Verdade. Pode parecer um objecto estranho e sem funcionalidade mas às vezes pode ser muito divertido.
Contam por aí, no círculo jesuítico, que um célebre padre desta ordem religiosa, recebendo o bispo da sua diocese na sua paróquia, teve um episódio peculiar com este abstracto instrumento. Antes de mais refira-se o carácter prático e 'despachado' do padre em questão - homem de mangas arregaçadas para o trabalho, pouco preso a pormenores distintivos, daquelas pessoas a quem o pensamento parece como que suceder-se ao acto: tudo é tão espontâneo que parece natural.
Assim, nessa célebre missa, não havia, como é comum, um mestre de cerimónias que com a sua atenção tudo providenciasse às necessidades do rito episcopal. Repare-se na foto: a Mitra tem duas fitinhas que costumam aconchegar as delicadas costas do prelado. Significa então, para o mais atinado observador, que a parte frontal da Mitra é aquela em que não há fitas. Fitas para trás! Outravez: "Fitas para trás!"
Acontece que o nosso mui prático mas pouco atento padre, solicitado em estado de emergência pelo seu bispo (numa daquelas alturas do cerimonial em que se exige a presença mitral na distinta cabeça). "Mitra! Mitra!" - invocou solenemente e entre sussurrantes palavras o Bispo. Num ímpeto solicitante o activo padre jesuíta veja-se: foi ao banco onde estava o objecto, mui rapidamente; deslizando pelo encarnado tapetal infringiu um gesto solene e instantâneo, daqueles que não são oportunos para muitos discursos; e numa ausência de delicadezas colocou sobre a episcopal 'catulinha' a tão esperada Mitra...
E como a vida está tão cheia de imprevistos, daqueles para os quais muitas vezes não conseguimos reagir. São actos do instante eterno, sem mácula, puros porque espontâneos, ausentes de culpa, exaltantes... Foi o que aconteceu ao nosso padre. A perspectiva poderia causar sorrisos, mas a solenidade era a barreira inexorável de tal atitude.
De repente as elegantes e decoradas fitinhas, que costumadamente enfeitam o dorso bispal, passaram a figurar salientadamente sobre o nariz, os olhos, a boca, a testa e os óculos do edificante pastor. Que cenário tremendo e inesperado! Ó vida crua e sonolenta, que surpresas nos reservas! Ó inteligência suprema que tanto nos dás a perceber! Como poderia a Mitra não ter distinção entre a fronte e traseira? Agora percebo sim, porque tantas distinções se estabelecem.

Depois de corrigido o erro, a celebração continuou sem nenhum outro imprevisto de maior....

17 de fevereiro de 2008

A minha Alegria


Depois de três dias de oração, contemplando os episódios evangélicos que nos revelam os mistérios de Deus, estou consolado por O ter encontrado. Deixo um excerto de um poema luterano, próprio da Quaresma, que expressa bem a procura deste encontro com Deus que nos transforma.

Jesus minha Alegria
Jesus, pastor do meu coração
Jesus, minha Glória
Quanto tempo, quanto tempo,
O meu coração espera por Ti…

Jesu, meine Freude

13 de fevereiro de 2008

400 anos depois, os mesmos desafios



No passado sábado, estive em Lisboa a participar no XVI encontro Fé e Justiça, organizado pelo CUPAV, com este título: P. António Vieira, 400 anos depois, os mesmos desafios. Quais desafios? As personalidades presentes foram convidadas a evocar quatro áreas: os direitos humanos, o diálogo entre culturas e religiões, um desígnio para Portugal e o serviço da Fé.
Depois de um dia inteiro, 4 painéis, 16 intervenções, todas estimulantes e densas, o que me fica?

1. A figura simultaneamente desconcertante e desafiadora do P. António Vieira, homem da política, da cultura, e sobretudo de Deus. Uma figura nas antípodas do “politicamente correcto”, que foi tudo menos consensual, e ainda hoje nos deixa perplexos: pelo vigor da sua palavra, pela diversidade da sua acção, pelo alcance da sua liberdade interior, para gritar e lutar por aquilo em que acreditava.
2. A actualidade, quatro séculos e muitas mudanças depois, dos seus ideais humanistas. O nosso mundo, a nossa sociedade que tanto se reclamam de direitos e liberdades já conquistadas, tem muito ainda que caminhar em direcção a uma verdadeira justiça e dignidade humanas, para todos os homens. Não faltam na aldeia global do século XXI, a começar pelo nosso Portugal, “inquisições” arbitrárias, “judeus e cristãos novos” rejeitados e discriminados, “índios” escravizados.
3. A força da beleza e da arte ao serviço da missão. As palavras do P. António Vieira marcaram o seu tempo, e continuam a marcar-nos, pelo esplendor barroco da sua escrita, transportando quem as escuta para o mais fundo de si mesmo e para Deus, ao encontro do outro, o “próximo”. A beleza do seu discurso convida-nos a buscar também a beleza, naquilo que dizemos e fazemos, como condição essencial para “encarnar” a palavra do evangelho à nossa volta.

links:
[Fé e Justiça]
[ver notícia]

12 de fevereiro de 2008

Quaresma e carbono

Já reparaste que a Quaresma começou há quase uma semana?
Em que é que esta Quaresma vai ser diferente? Já pensaste nisso? Já te propuseste a fazer algo de especial para este ano ser a sério, ao lado de Jesus?
A Igreja Anglicana está a propor uma renúncia quaresmal diferente, que responde a algumas preocupações dos cristãos de hoje: as mudanças climáticas. São 40 propostas, uma para cada dia da Quaresma, muito variadas, eficazes e muito simples, todas relacionadas com a redução das emissões de carbono, a poupança de energia e de recursos, e com as respectivas consequências. Mesmo que optes pela tradicional actividade quaresmal, porque não pensar também em algumas das propostas e reverter o dinheiro poupado para alguém/instituição que mais precise?

Vê a notícia aqui, arrisca e tem uma boa caminhada até à Pascoa:
http://www.guardian.co.uk/environment/2008/feb/05/tearfund

Foto: Serra da Lousã. Tirada por Francisco Campos - 2006

7 de fevereiro de 2008

Encontro



Pensei
e nada senti

Deixei de pensar
Senti
e amei

Deixei de sentir
e fui amado

E passamos a ser.

José Alberto



Hoje quero partilhar este poema convosco. Um bom dia a todos!

5 de fevereiro de 2008

Quarta-feira de Cinzas


Memento, homo, quia pulvis es
et in pulverem revert.
Gênesis, 3:19.


Em memória dos 400 anos do Nascimento de António Vieira



"Lembra-te, homem, que és pó, porque foste pó, e hás de tornar a ser pó; brademos com a mesma verdade aos mortos, que já são pó: Lembra-te, pó, que és homem, porque foste homem, e hás de tornar a ser homem: Memento pulvis quia homo es, et in hominem reverteris.

Senhores meus: não seja isto cerimônia: falemos muito seriamente, que o dia é disso. Ou cremos que somos imortais, ou não. Se o homem acaba com o pó, não tenho que dizer; mas se o pó há de tornar a ser homem, não sei o que vos diga, nem o que me diga. A mim não me faz medo o pó que hei de ser, faz medo o que há de ser o pó. Eu não temo na morte a morte, temo a imortalidade: eu não temo hoje o dia de Cinza, temo hoje o dia de Páscoa, porque sei que hei de ressuscitar, porque sei que hei de viver para sempre, porque sei que me espera uma eternidade ou no Céu ou no Inferno."

P. António Vieira

In: Sermão da quarta-feira de Cinzas. Roma. Igreja de Santo António. 1670.

3 de fevereiro de 2008

A força do servidor é somente Deus


Da Primeira Homilia do P. Nicolás como Geral SJ

"Antes de mais gostaria de dizer que esta não é uma mensagem para o mundo. É uma simples homilia. Uma reflexão orante sobre as leituras de hoje para os jesuítas que estamos aqui.

A primeira leitura, de Isaías (Is 49, 3.5-6), creio que nos dá a todos nós, cristãos, um pouco da visão sobre a nossa missão no mundo. Isaías diz-nos que fomos feitos para ser servidores, que estamos aqui para servir. É uma mensagem clara sobre a nossa missão como jesuítas, como cristãos, como povo de Deus. Deus faz-nos servidores. Nisto O Senhor encontra satisfação. A tradução espanhola da leitura que foi lida diz que Deus está orgulhoso do Servo. A tradução italiana diz que Deus “tem satisfação”. Creio que esta última tradução se aproxima mais do que a Bíblia quer dizer. Quanto mais nos fazemos servidores, mais agradamos ao Senhor. Creio que esta é uma imagem que hoje devemos levar connosco.

Os jornais, as revistas julgam estes dias como um “cliché”: o Papa Negro, o Papa Branco, poder, encontros, discussões... Mas tudo isto é tão superficial, tão irreal! Isto não é mais que um pouco de alimento para os que amam a política, mas não para nós.

Isaías diz-nos: Servir agrada ao Senhor. Servir é o que conta: servir a Igreja, servir o mundo, servir os homens, servir o Evangelho. Também Sto Inácio nos disse como que num resumo sobre a nossa vida: em tudo amar e servir. E o nosso Papa, o Santo Padre Bento XVI, disse-nos, recordando a essência do Evangelho, que Deus é Amor.

Depois Isaías diz-nos qual é a força do servidor. A força do servidor é somente Deus. Nós não temos outra força. Nem as forças externas da política, dos negócios e dos meios de comunicação, nem a força interna da investigação, do estudo e dos títulos. Somente Deus. Como os pobres. Há pouco conversava com um de vós, sobre uma coisa que me aconteceu no tempo em que trabalhava com emigrantes. Houve uma experiência que me impressionou. A uma filipina que tinha sofrido muito com dificuldades de integração na sociedade japonesa acercou-se outra para lhe pedir conselho: “Tenho dificuldades com o meu marido, não sei se devo divorciar-me ou continuar a tentar”… Pedia-lhe conselho sobre estes problemas bastante habituais. A primeira respondeu-lhe: “Neste momento não sei o que dizer-te. Mas vem comigo à Igreja e rezamos, porque a nós, os pobres, só Deus nos ajuda”. Isto impressionou-me muito, porque é muito verdadeiro. Para os pobres somente Deus é a força. Para o serviço desinteressado sem condições somente Deus é a força. Depois o Profeta continua, falando-nos de saúde. A nossa mensagem é uma mensagem de saúde, de salvação. Isaías indica mais adiante o ponto que mais me impressionou: o nosso Deus, a nossa fé, a nossa mensagem, a nossa saúde são tão grandes que não se podem encerrar num recipiente, num grupo, numa comunidade, ainda que a comunidade seja religiosa. Trata-se de notícias de salvação para todas as nações. É uma mensagem universal porque a mensagem mesma é enorme. Uma mensagem que só por si é irredutível.

Hoje estamos aqui representantes de todas as nações. Todos, todo o mundo está aqui representado. No entanto, as nações continuam a abrir-se ainda mais. Penso agora quais são hoje para mim as “nações”. Com efeito, estamos aqui todas as nações geográfica, mas talvez existam outras nações, outras comunidades não geográficas mas humanas, que reclamam a nossa assistência: os pobres, os marginalizados, os excluídos. Neste mundo globalizado aumenta o número dos que são excluídos por todos, dos que são diminuídos, porque na sociedade têm lugar os grandes e não os pequenos. Todos os pobres, os manipulados, todos esses são quiçá para nós estas “nações”. As nações que têm necessidade do profeta, da mensagem de Deus.

Ontem, depois da eleição, depois do primeiro choque, chegou o momento da ajuda fraterna. Todos vós me saudastes com um cumprimento muito generoso, oferecendo o vosso apoio e a vossa ajuda. Um de vós disse-me num sussurro: “não te esqueças dos pobres!”. Talvez esta tenha sido a saudação mais importante, como quando Paulo se dirige às Igrejas mais ricas pedindo para os pobres de Jerusalém. Não te esqueças dos pobres: estas são as nossas “nações”. Estas são as nações para as quais a salvação é ainda um sonho, um desejo. Talvez a salvação esteja já entre elas, mas não a percebem."

Extracto da primeira Homilia do P. Adolfo Nicolás como Geral da Companhia de Jesus (trad. do Espanhol de Bruno Nobre)

2 de fevereiro de 2008

2 Videos sobre o P. Adolfo Nicolás

Reportagem da TVE sobre o novo P. Geral
[espanhol 11min52]











Uma entrevista do P. Adolfo Nicolás (antes da sua eleição) acerca do que é ser jesuíta
[inglês 2min41]