29 de abril de 2009

Acreditar em Deus (2)

O segundo vídeo regista a intervenção do Helder e do Ricardo.
A minha resposta às suas perguntas virá noutro vídeo. Por agora gostaria apenas de recordar uma frase algo misteriosa do Ricardo: “Nós, ateus, sabemos como as coisas são”. Bem gostaria que o Ricardo me explicasse o que quer dizer com isto!
O Ricardo pergunta também porque não vem Jesus de novo a este mundo manifestar-se como Deus. A resposta é muito simples. Já veio uma vez, e já se manifestou como devia. Já disse o que tinha para dizer à Humanidade. O que acrescentaria à sua manifestação há dois mil anos uma nova manifestação? Nada! Além disso, para os que têm fé, Cristo não se foi embora, permanece entre nós, como ele próprio prometeu. Mas mesmo que ele decidisse manifestar-se de novo na forma humana de há dois mil anos, não penso que os não crentes o aceitassem como Deus.

28 de abril de 2009

ACREDITAR EM DEUS. PORQUE SIM? PORQUE NÃO? (1)

No passado dia 14 de Março realizou-se na Aula Magna da Faculdade de Filosofia de Braga um debate sobre a existência ou não de Deus entre dois ateus, Helder Sanches e Ricardo Silvestre, do Portal Ateu, e dois crentes católicos, Alfredo Dinis, da Faculdade de Filosofia, e Bernardo Mota.
Algumas pessoas que não puderam estar presentes exprimiram o desejo de ver esse debate on-line. É o que agora aqui faremos. A qualidade técnica do filme não é excelente, mas creio que é suficiente para seguir o debate.

O primeiro vídeo contém a introdução ao debate, conduzido pelo com maestria Pedro Morgado, a quem mais uma vez agradeço a tarefa de moderador.

O segundo vídeo regista a intervenção do Helder e do Ricardo. Estou a ter algumas dificuldades técnicas em fazer o upload deste vídeo. Por isso, apenas o vídeo de introdução vai estar on-line. Espero colocar brevemente os vídeos com o debate.

27 de abril de 2009

São Pedro Canísio


Hoje, na Companhia de Jesus, celebramos a vida de São Pedro Canísio. Nascido em 1521, no ducado de Geldern, actual Holanda, é pelo pai enviado com apenas quinze anos para Colónia a fim de estudar filosofia. Depois prossegue os estudos em Direito até fazer os exercícios espirituais inacianos sob a direcção de Pedro Fabro em 1543, que o movem a optar pelo ingresso na ordem recém fundada dos jesuítas.

Exerceu a sua actividade pastoral sobretudo na Alemanha, perante o contexto de uma igreja divida pela reforma protestante. A reputação de Canísio deve-se sobretudo à magnânime defesa da fé católica que operou, tanto na eloquência dos sermões pregados na Baviera, como na publicação do célebre catecismo, Summa Doutrinae Cristianae, que assinala o início da imprensa católica em 1555.

No entanto, toca-me especialmente a vontade, quase incontrolada, que o movia a aprofundar a fé na Escritura e a partilhá-la com os outros. Este fascínio sobre as coisas de Deus não o afastou do mundo. Estudou, trabalhou como o comum dos mortais. Mesmo na sua vida de sacerdote jesuíta, fundou colégios e desempenhou o cargo de superior provincial da Alemanha durante trinta longos anos. Não guardou a sua experiência de Fé para si: ofereceu-a entregando-se aos outros. Esta foi, realmente, a graça que pediu: «o que eu mais desejava é que daí se derramassem sobre mim torrentes de fé, esperança e caridade. Tinha sede de pobreza, castidade e obediência e pedia-Vos que fosse por Vós totalmente purificado» (Canísio, escritos espirituais).

26 de abril de 2009

Um Santo Condestável



"D. Nuno Álvares Pereira foi portador de uma santidade moderna. Confrontou as suas decisões à luz de uma união com Deus em situações contingentes, de enorme exigência. Foi santo como os que hoje se envolvem nas coisas do Mundo: políticos, militares ou empresários.

Obedecendo aos ideais de Cavalaria, teve uma prática de vanguarda na defesa de Direitos Humanos e no cuidado ao próximo. Por exemplo, em vez de deixar morrer ou matar o inimigo vencido, pelo contrário, organizava hospitais de campanha para cuidar desses feridos, dava-lhes terras e mandava vir as suas famílias para poderem refazer a vida em Portugal. Do mesmo modo, enviava cereais para Espanha quando lhe chegaram notícias da fome que grassava nas terras da rota do exército inimigo, em retirada.

Nun’Álvares foi um homem que não conhecia as fronteiras políticas, raciais ou religiosas para praticar os valores do Evangelho. Sabe-se que, já naquele tempo, apoiou a construção de mesquitas e sinagogas para garantir aos Mouros e aos Judeus a prática de uma liberdade religiosa nem sempre reconhecida.

É também com Nun’Álvares que se institui a prática do caldeirão da sopa dos pobres que, ainda hoje, com nova urgência, se serve nos Anjos, em Lisboa. Sendo o homem mais abastado do Reino, retirou-se para a vida espiritual na Ordem do Carmo deixando os seus bens ao serviço dos mais desprotegidos.

A virtudes humanas de Nun’Álvares Pereira transformaram-no num modelo para os portugueses para saber vencer provações, em tempos de crise. Gerou uma devoção contínua nos últimos seis séculos. Desde o momento da sua morte que foi considerado santo - o Santo Condestável - sendo a sua sepultura um lugar de culto continuado até ao Terramoto de 1755 e, depois, nos diferentes lugares das relíquias."


Inês Dentinho, In: Ecclesia, 14 de Abril de 2009

25 de abril de 2009

O Céptico Sexto Empírico da Antiguidade Clássica


Sexto Empírico foi médico tendo exercido a sua actividade durante a última metade do século II d.C. as datas a seu respeito são controversas e os detalhes da sua vida muito pouco conhecidos.
A obra de Sexto Empírico é a principal fonte de conhecimento sobre o cepticismo do seu tempo. Sexto era um céptico grego da escola de Pirro. Das suas obras que nos chegaram são: “Adversus Mathematicos” e “Hypotyposes Pyrrhoniennes”.
Na sua obra podem sublinhar-se três pontos importantes. O primeiro é a sua critica da dedução e da indução, o segundo a sua crítica do conceito de causa e o terceiro a sua crítica à teologia estóica. Sexto Empírico criticou a dedução por esta não ter validade pois os silogismos que eram exemplos de circularidade, como podemos ver neste silogismo: “Todo o homem é animal, Sócrates é homem, portanto Sócrates é animal” , não se poderia aceitar a primeira premissa, se não fosse já demonstrada a conclusão do silogismo(que o homem é animal), ou seja não se pode provar por indução completa pois implica conhecer previamente a conclusão com isto ele quer nos indicar que quando queremos demonstrar uma conclusão, sendo essa derivada de um principio universal, em verdade esta já se irá presumir demonstrada. Sexto também criticou a indução por não ter maior validade que a dedução pois se esta tem como base o exame de alguns casos, não é fiável, pois é possível desmentir em qualquer altura os casos não examinados, também porque os casos particulares são quase infinitos e por isso impossíveis de analisar.
Na sua crítica à causa, parte do principio que se a causa produz o efeito logo esta deve preceder o efeito e existir antes dele mas se existe antes de produzir o efeito, é causa antes de ser causa e como é obvio a causa não pode seguir o efeito nem ser contemporânea deste pois o efeito só pode ter origem da coisa precedente.
Por último Sexto criticou a teologia estóica pois para ele existiam contradições implícitas no conceito estóico de Deus. Segundo estes tudo aquilo que existe é corpóreo, logo também Deus, objectou que um corpo ou é composto e está sujeito à corrupção logo mortal ou então é simples e então seria algum dos constituintes como água ou fogo ou ar ou terra. Como tal Deus ou seria mortal ou um elemento. Outro argumento de Sexto é que se Deus para os estóicos tem todas as virtudes, então também terá coragem, porém a coragem é o termo para as coisas temíveis e não temíveis logo haveria algo de temível para Deus o que para Sexto era absurdo.
Sexto servia-se de todos estes argumentos para solidificar a sua suspensão do juízo, para ele na vida o céptico deve seguir os fenómenos para isso deve guiar-se pelas indicações que a natureza proporciona através dos sentidos, pelas necessidades do corpo, pela tradição das leis e pelas regras das artes. Daqui distinguia-se dos cépticos académicos para quem admitiam saber apenas que nada sabiam face aos pirrónicos que negavam esse ponto, face à sua posição de constante procura.

21 de abril de 2009

Santo Anselmo e o Argumento Ontológico


Hoje a Igreja celebra Santo Anselmo como tal aqui fica um pequeno excerto do Proslógion, contendo o famoso Argumento Ontológico.

"Pois bem, Senhor: tu que dás a intelecção da fé, concede-me na medida em que sabes convir-me, que eu inteleccione que tu existes, como nós o acreditamos, e que és isso mesmo que nós acreditamos. Nós realmente acreditamos que tu és alguma coisa, maior do que a qual nada se pode pensar. Porventura não existe uma realidade dessa natureza, pois que "o insipiente disse no seu coração - Deus não existe?" (Salmo 13,1). Mas evidentemente, esse mesmo insipiente ao ouvir isto mesmo que eu digo - alguma coisa, maior do que a qual nada se pode pensar-, intelecciona o que ouve, e o que intelecciona está na sua inteligência, embora ele não inteleccione que isso existe. Com efeito, uma coisa é estar certa realidade no intelecto, outra coisa inteleccionar que essa realidade existe. Assim, quando um pintor pensa antecipadamente no que vai fazer, tem-no de facto no intelecto, mas ainda não intelecciona que existe o que ainda não fez. Mas depois que o pintou, não só tem no intelecto, mas também intelecciona que existe o que já fez.
Tem por conseguinte de reconhecer o mesmo insipiente que - alguma coisa, maior do que a qual nada se pode pensar - existe ao meno no intelecto, pois que ao ouvir isto, intelecciona-o, e tudo o que intelecciona existe no intelecto. E indubitavelmente, - aquilo, maior do que o qual nada se pode pensar - não pode existir apenas no intelecto. Com efeito, se ao menos existe só no intelecto, pode pensar-se que existe também na realidade, o que é ser maior. Por conseguinte, se - aquilo, maior do que o qual nada se pode pensar - existe apenas no intelecto, - aquilo mesmo, maior do que o qual nada se pode pensar - é - aquilo mesmo, maior do que o qual [ alguma coisa ] se pode pensar. Ora isso é evidentemente impossível. Existe pois indubitavelmente, tanto na inteligência como na realidade, - alguma coisa, maior do que a qual não se pode pensar [ nada ]."

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ANSELMO, Proslógion. p. 87-88(Cap. II), In: Opúsculos Selectos da Filosofia Medieval: Faculdade de Filosofia de Braga, 1982.

19 de abril de 2009

Senhor e Deus, Liberdade e Discrição

O Evangelho deste domingo relata-nos duas aparições de Jesus ao grupo dos apóstolos que, recebendo a paz de Cristo, se transforma de grupo de apóstolos em comunidade de testemunho. O que gerou esta mudança que, aceitemo-la ou não, fez com que tantos homens fossem capazes de testemunhar o que haviam recebido sem recearem a própria morte? Loucura sã ou ridícula? O que gerou esta mudança que fez com que Tomé, aquele que só acreditara depois de ver, tenha dado ao galileu Jesus de Nazaré o nome de “Senhor e Deus”, nome somente conferido ao imperador romano? Quem foi afinal este homem que ainda hoje intriga gerações que, ora se ajoelham diante dele, ora lhe respeitam como profeta de uma ética revolucionária, ora lhe chamam de bom ingénuo que implantaria o ‘ópio do povo’, o ‘platonismo dos pobres’?

MEU SENHOR LIVRE esse galileu, Jesus de Nazaré, foi sobretudo um homem sumamente livre. Livre porque não se deixava determinar por uma Lei impregnada de “fardos pesados” que Deus nunca poria nas costas dos seus filhos. Livre porque, não sendo sacerdote ou intérprete da Lei, dava uma nova cor as promessas de Deus preditas pela boca e pena dos profetas, sendo transparência viva das parábolas que proclamava sobre o Reino que d’Ele emergia. Livre porque transgrediu os imperativos tribais e familiares, exigindo dos discípulos liberdade relativamente à família, afirmando que a Sua família eram os que faziam a vontade do Pai, sem se deixar escravizar por laços dos familiares que o julgavam “fora de si”. Livre porque, numa sociedade que distinguia ‘puros’ de ‘impuros’, acolhia e comia com os cobradores de impostos (ladrões notórios e odiados); deixava-se tocar por prostitutas (o que escandalizou o fariseu Simão, pois se fosse profeta não se deixaria beijar nos pés por aquela mulher, cria ele); aproximava-se do povo, ignorado pelos letrados, pois Ele sabia-lhes a miséria e os sofrimentos. Mais ainda, dizia aos fariseus que «os publicanos e as prostitutas preceder-vos-ão no reino de Deus.12
A senhoria de Jesus é a Sua forma de ser livre, evocando uma presença atenta que “não ocupa o espaço todo. Mas, antes, in-voca, con-vida, dá a palavra, cede a passagem para que cada um, a partir do que já o habita em profundidade, possa reconhecer-se em verdade naquele momento de reconhecimento. 3


MEU DEUS DISCRETO esta discrição de Deus deixa-nos atónitos ante o nosso desejo de nos fazermos valer por mais do que aquilo que somos. Jesus nunca se assumiu como o ‘Messias’ que todos esperavam, porque sabia o quão politizados estavam os ouvidos dos seus conterrâneos ao ouvirem essa palavra 4. Neste sentido Jesus desiludiu-os ao viver com firmeza as opções de fundo que fizera nos dias de deserto. Não quer vir de cima trazer a justiça numa bandeja, para ser louvado por todos só por causa das suas magias.
Assim, já não há a justiça divina. Aqui, diante do Senhor livre e Deus discreto, a justiça não é um conceito quimérico, é uma pessoa: Jesus de Nazaré, o justo! O Reino feito carne viva, para sarar e refazer, com azeite e vinho, as nossas carnes mortas. Curiosamente o Ressuscitado, diz o papa Bento XVI, não deseja ser reconhecido pelo rosto mas pelas marcas da paixão.
Assim, o Ressuscitado, confirma a sua vocação de médico dos doentes e pastor da ovelha perdida. Sim, porque quer emergir da ferida, do ‘ainda não’, do pobre, do marginalizado, do sofredor 5, de Quem Se faz cara-metade e Salvador inteiro. Evidenciando-se para aqueles que vêem a “atenção como forma mais pura de generosidade 6”.


UMA PRESENÇA pela qual, a fé consiste em tomar por Senhor esta presença viva e activa que, presente hoje nas fábricas, no trânsito, nas faculdades, nas favelas, em mim..., Se faz caminho para o nosso Pai. Prometendo permanecer nesse intimo movimento que vai entre o silêncio e a voz, onde o presente se confronta com o passado, desdobrando-se para o futuro, em desejo de alcançar o ponto justo dessa dança, movimento, rota… desse desígnio alegre e desafiante das pequenas decisões do dia-a-dia que, para quem participa da liberdade e atenção de Cristo, se transfiguram de errância em mãos de Deus.
O desafio não está, portanto, em dar mais nomes bonitos e cheios ao ressuscitado. O que é preciso é passar do ‘Senhor e Deus’ para o ‘Meu Senhor e Meu Deus’. E isso só se faz por meio da liberdade de Cristo, numa vida configurada pelo seu estilo de ser livre. Livre para dar espaço… livre para ouvir mais os chatos que os interessantes… livre para ter paciência com os insuportáveis… livre para perceber que há muita gente diz não acreditar em Deus por ‘imagens traumáticas’ que d’Ele tem ou por não ousarem dar nome ao que sentem habitá-los… livre para dar a quem não me pode pagar e aí gastar-me todo… Livre de afectos, afectado pela liberdade, transparência simples do rosto discreto de Deus. Nisto consiste ser justo à maneira de Cristo!



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[1] Mt 21, 31
[2] DUQUOC, Christian – Jesus, homem livre, Camarate: EDIÇÕES PAULISTAS, 1979, p. 27 a 41
[3] FRAZÃO, José – “O memorial do Papa aos Bispos portugueses” in Brotéria. Vol. 166. Lisboa: BROTÉRIA, p. 120
[4] Jesus, homem livre, p. 50
[5] cf. Tempo de Transcendência - Leonardo Boff
[6] cf. carta de Simone Weil a Joë Bousquet


18 de abril de 2009

Deixe de pensar na crise, eu tenho a solução. Como ganhar muito dinheiro em pouco tempo. Veja aqui!

Por entre as toneladas de newsletters que recebo todas as semanas, encontra-se uma muito especial, a de uma agência noticiosa financeira Australiana. Inscrevi-me na newsletter desta agência informativa em Setembro e até agora tinha-me sentido satisfeito com o serviço noticioso prestado.














Contudo ontem para meu espanto e pela primeira vez, ao ler a newsletter desta mesma agência deparo-me com um anúncio caricato. Pois este diz: "
Stop worrying about recession for
5 minutes and take a look at this...

If you believe all the doom and gloom you read in the mainstream press, the chances are you're already resigned to losing your shirt in this recession.

But if you're prepared to open your mind for a few minutes... and consider something that most other people won't have thought of doing... I can show you how you can turn panic into profit this year...

I'm talking about a PROVEN strategy for taking pocket change, and multiplying it many times over... this technique has already turned $500 into $11,775... and I'm waiting to demonstrate how you can put it to work straight away using money you have now..."

Segue-se a este anúncio um link para o qual nos devemos dirigir para mais esclarecimentos, mas que irei omitir (Até porque quero ser eu a escapar da recessão).
Estas ofertas miraculosas aparecem em todos os tempos, contudo é um pouco anormal, estas surgirem envolvidas na newsletter duma agência noticiosa credível. Talvez seja um sinal do que estará ainda por vir, pois, se a publicação do
Segredo alegrou a tanta gente, não poderão outros acreditar que estas curas financeiras são também outros segredos por aí escondidos à vista de todos prestes a serem encontrados?
Pois bem, das duas uma, ou são ingénuos ou então devem acreditar na orientação de um velho provérbio chinês: "Quem quer esconder um tesouro, coloca-o num local bem visivel".

Assim se presta o
Segredo, já temos mais uma chave de sucesso literário para os proximos tempos, um tema que a muitos agrada: Como sair da crise em 10 simples passos!

Pois bem eu já tenho o meu Segredo para sair da crise, em vez de seguir o esquema em cima proposto, vou começar a escrever um livro. E para ser ainda melhor que todos eles, no meu livro ensinarei a sair da crise em apenas 6 passos.
Mas não adianto mais nada pois é Segredo.
E o segredo é a alma do negócio.

17 de abril de 2009

O Jesuíta bailarino vem ao Museu do Oriente


SAJU GEORGE, O JESUÍTA BAILARINO

Dança indiana 29 Maio
Auditório 21.30
Preço: € 15,00 M/6
Duração aprox.: 120 minutos, com intervalo
Produção: Fundação Oriente


O bharatanatyam é uma dança elegante, de grande impacte visual. Proveniente dos templos do estado de Tamil Nadu, no Sul da Índia, esta dança milenar é a mais antiga das principais formas de dança clássica da Índia.

Os bailarinos, nas suas coreografias, apresentam gestos e movimentos representativos da mitologia, filosofia, épica, histórias antigas, temas contemporâneos e de outras experiências da vida.

Oriundo de Calcutá, Saju George Moolamthuruthil, s.j., mais conhecido por O Jesuíta Bailarino, é um artista dinâmico e único, com uma rara visão e paixão pela arte e cultura da Índia e um brilhante bailarino de bharatanatyam.

Presente nos palcos há cerca de 15 anos, Saju George, s.j. tem tido a preocupação de conjugar a dança com a sua fé católica e o seu sacerdócio, encarando a arte como um meio efectivo de integração espiritual e transformação social.

Nos últimos anos, Saju deu mais de 200 espectáculos na Índia e por todo o Mundo, usando quer temas hindus, quer temas cristãos. Ora recorre a imagens de Radha-Krishna e de Shiva-Parvati, ou a imagens da crucificação e ressurreição de Cristo.

Para o Jesuíta Bailarino, a dança significa oração e adoração, auto-conhecimento e realização divina, deleite estético e integração cósmica, serviço social, promoção da paz e harmonia inter-religiosa, ecumenismo e muito mais. Ele acredita fortemente no poder da arte e, de um modo especial, da dança e da música.

Saju George é também director de vários centros de arte e cultura e de desenvolvimento social, tais como o Kalahrdava, a Art Peace Foundation e o Shanti Nir, em Calcutá.

texto retirado de http://www.museudooriente.pt/672/saju-george--o-jesuita-bailarino.htm

16 de abril de 2009

O Eterno Descobrimento


Deus não se apresenta aos nossos seres finitos
como uma Coisa já completamente acabada
que vamos abraçar.
Deus é, antes, para nós
o eterno descobrimento
e o eterno Crescimento.
Quanto mais julgamos compreendê-lo,
mais Ele se mostra diferente do que julgávamos.
Quanto mais julgamos tê-lo agarrado,
mais ele recua, atraindo-nos para as profundezas de si próprio.
Quanto mais nos aproximamos dele,
por todos os esforços da natureza e da graça,
Mais Ele aumenta com o mesmo movimento,
a sua atracção sobre as nossas potências,
e a receptividade das nossas potências
a essa divina atracção.

Teilhard De Chardin

14 de abril de 2009






Mas a quantos O receberam
aos que nele crêem
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus


(Jo 1, 12)


13 de abril de 2009

Páscoa em Soutelo


"O valor de um eu depende da sua medida.
Dando-nos Cristo por medida,
Deus lembra-nos e mostra-nos
até onde pode ir a imensa realidade de um eu."

Kierkegaard

11 de abril de 2009

Agora começa. Tudo começa!



ASSUSTADOS, DESANIMADOS, COM MEDO: fechados num cubículo, desorientados e tristes. Era este o estado de espírito dos discípulos quando Jesus ressuscitou. Nada daquilo que antes os movia, lhes dava esperança, os animava ou abria os olhos para a beleza da sua própria existência, sobrevivia. Como numa manhã abraçada de neblina... Tudo havia mudado. O Mestre havia desaparecido.
Os acontecimentos que nos marcam, em particular aqueles que nos ferem e provocam, têm o especial dom de nos fazer esquecer os tempos de consolação. Mudamos de estado de espírito quase sem nos apercebermos. O medo apodera-se de nós, rodeia-nos, e não nos permite olhar para além da dor.
Fechados num cubículo, onde a luz está ausente, porque não queremos ser vistos, encontrados, reconhecidos. Nenhuma metáfora mais certa, nenhuma analogia mais incisiva poderia conceder espaço à nossa frágil imaginação. Onze homens a fugir de si mesmos, dominados de receios, sem liberdade.

INCRÉDULOS PERANTE O ANÚNCIO DA RESSURREIÇÃO: Uma mulher foi a primeira a saber. Que facto poderia ferir mais o orgulho de onze homens feridos e com medo? Mesmo diante da memória das palavras do Mestre, haveria sempre algo a questionar. Poderá um homem nascer de novo? Eventualmente superar a experiência da morte?
A morte já não é mais o final, a absurdidade que fecha o homem sobre si mesmo. Jesus enfrentou a falta de fé dos seus próprios discípulos, daqueles que tudo haviam deixado para O seguir, daqueles que o escutaram vezes sem conta, que com Ele haviam partilhado os últimos anos da sua vida. Onde estava a confiança? Em que lugar residia a esperança?
À imagem dos discípulos, tantas são as situações em que os nossos olhos se recusam a admitir aquilo que a fé revela. Precisámos de ver, de tocar, de sentir e ainda assim não há certeza ou facto óbvio que consiga perturbar a nossa sede por duvidar. Ainda que Deus decidisse fazer o maior milagre possível, os nossos corações vacilariam. Todavia... eis o verdadeiro milagre, aquele limite que nos toca e questiona incessantemente. Quem não sentiu já os seus joelhos a tremerem diante da grandeza do gesto e da palavra inesperada? Quem não sentiu já o seu coração a bater tão forte que parecia querer rebentar os tecidos do seu peito? Quem não se deixou tocar e mover por essa força que nos anima e dá paz? Quem não acredita ainda que é o amor que nos traz aquilo que todo o ser humano ambiciona no mais fundo de si?
O amor, experiência mais sublime da nossa humanidade, é o milagre quotidiano mais óbvio que nos não permite duvidar.

"EU ESTAREI CONVOSCO ATÉ AO FIM DOS TEMPOS": Aí está Ele diante dos nossos olhos. Não há dúvidas! Já não há espaço para senãos. Viram e acreditaram. A ânsia desenfreada de certezas, os medos infantis que os dominavam, a escuridão do cubículo onde se escondiam... tudo havia desaparecido. Ele estava ali! Agora tudo começa de novo, uma vida nova se apoderava deles sem se darem conta.
A experiência do sofrimento e da morte havia renovado aqueles homens, tanto que poderíamos falar de uma vida nova, de uma autêntica ressurreição. Poderá um homem voltar ao ventre de sua mãe? Talvez não. Contudo a vida de um homem, que veio inaugurar uma nova lógica da existência, que se 'encosta' ao nosso lado, que partilha surpreendentemente as nossas dificuldades, as nossas hesitações, as nossas dores e dúvidas, pôs tudo em estado de sítio. Como aqueles terramotos que não deixam nada no seu lugar, assim este Homem conseguiu o que ninguém havia conseguido. Deus desceu do seu pedestal, do altar longinquo que o separava tanto daqueles que amava. O amor pede uma proximidade absoluta, exige uma vontade inexorável de fazer o bem ao outro, faz-nos abdicar de tudo aquilo que parecia imprescindível na nossa vida. Quem não consegue entender isto?
Deus obriga-nos a começar de novo. Descoordena todas as nossas prioridades, escangalha as nossas tempestades angustiadas e abre-nos a vida à serenidade. Qual é o acontecimento, a ausência, a morte, a dor, a dúvida que nos poderá tirar a paz, o gozo, a alegria de termos ao nosso lado Alguém que nos compreende e acolhe?
Agora começa. Tudo começa!

10 de abril de 2009





Era a Luz verdadeira
que ao vir ao mundo a todo o homem ilumina

e os seus não O receberam

(Jo 1, 9.11)


Para que a semana seja santa


Parece que já temos um messias com solução para a crise mundial, produto essencialmente norte-americano bem exportado

1. Tornou-se bastante habitual, nesta época litúrgica, receber, dos grandes meios de comunicação, descobertas sensacionais, tentando documentar as pretensas mentiras que estariam na base do cristianismo.
Este ano ainda não dei por nada de semelhante. O bicentenário do nascimento de Darwin e as atitudes das igrejas perante a evolução e a propaganda antiteísta bastam para entreter as conversas entre religião e ciência. Por outro lado, parece que já temos um messias com a solução para a crise mundial, produto essencialmente norte-americano bem exportado.
Nada disto impede, porém, que os investigadores sérios das origens do cristianismo e dos textos do Novo Testamento - a investigação já passou por diversas fases - continuem a procurar o Jesus histórico, o ambiente religioso e cultural em que viveu e a história da primeira expansão do movimento cristão, no mundo judaico e no mundo pagão. Multiplicaram-se, entretanto, as imagens acerca de Jesus de Nazaré, procurando cada um destacar aquela que julga ser a dominante: mestre espiritual, profeta escatológico, profeta carismático, reformador social, guerrilheiro, revolucionário político, taumaturgo e exorcista, mago, carismático itinerante, judeu marginal, etc.
Para tentar chegar a um consenso, o Jesus Seminar, fundado, em 1985, pelo falecido Robert Funk e John Dominic Crossan, patrocinado por Westar Institute de Sonoma (Califórnia), publicou, depois de vários estudos e debates, Os Cinco Evangelhos - incluem o de Tomé -, a quatro cores, que indicam o que Jesus certamente disse (vermelho), o que Jesus provavelmente disse (lilás), o que Jesus provavelmente não disse (cinzento), o que Jesus sem dúvida alguma não disse (preto) (1).
Não se deve concluir que se trata de um empreendimento insignificante e votado ao fracasso. Tudo o que for alcançado será sempre ganho - embora provisório - para a ciência e não atrapalha a fé cristã, que não é só um fazer crer o mistério insondável de Cristo - mistério do mundo - mas, sobretudo, um "fazer-fazer", sem dúvida, o que se torna mais decisivo.

2.Albert Schweitzer (1875-1965), um alsaciano famoso, teólogo, filósofo, músico e um dos melhores intérpretes de Bach, convidado aos 24 anos para professor na Universidade de Estrasburgo, disse adeus às suas investigações sobre o Jesus histórico - um marco importante no começo do século XX (2) - e foi doutorar-se em Medicina. Que terá acontecido para esta viragem, para o encontro de Cristo na história dos que sofrem?
Numa manhã de Pentecostes, A. Schweitzer foi acordado pelo toque dos sinos e, como escreveu: "Imóvel, escutei aqueles sons juntamente com a voz da minha felicidade íntima. Os meus sonhos mais radiosos tinham-se concretizado. A vida abria-se maravilhosa diante de mim. Mas, de repente, o meu pensamento voltou-se para uma multidão de homens, homens sem conta que nada possuíam... Vieram-me à mente as palavras de Jorge Nitschelm: 'Se em minha casa houvesse a fartura que há na tua...', e as palavras do meu pai diante da estátua do negro: 'a gente mais pobre e miserável do mundo...'. Dentro de mim ressoavam insistentes as palavras do Evangelho: 'Àquele que muito recebeu muito será pedido... Recebestes de graça, pois dai de graça... Pregai a palavra... Curai os enfermos...'" Naquela manhã Albert Schweitzer, com calma e lucidez, tomou uma decisão: continuaria a dedicar-se à ciência por mais seis anos. Depois, deixaria tudo e iria para o país considerado, na altura, o mais miserável a fim de dedicar a vida aos seus irmãos mais esquecidos. Partiu para África (Gabão), como médico, fundou um hospital, onde tratava mais de 40 doentes por dia, e, paralelamente ao serviço médico, pregava o Evangelho numa linguagem que despertava para o essencial e acessível a todos: agir em beneficio do próximo (3). Este Prémio Nobel da Paz, mundialmente reconhecido com numerosas distinções honorárias, casado com Hélène e pai de cinco filhos, trabalhou até à morte, a 4 de Setembro de 1965. Tinha 90 anos. Os seus restos mortais ficaram em Lambaréné, ao lado dos restos mortais da sua esposa, falecida em 1957 e que, desde o começo do namoro, abraçou os sonhos de Albert.

3.Que haverá de comum entre o Mestre, morto como um criminoso às portas de Jerusalém - teria uns 35 anos -, e este discípulo, pastor protestante, que morre, no cume da glória, aos 90 anos no Gabão? O essencial: ganhar a vida, gastando-a por aqueles que nada podem fazer por nós. A. Schweitzer, um grande intelectual e um artista consagrado, percebeu que o decisivo não é fazer uma carreira científica com a história de Jesus - embora isso possa ser culturalmente muito importante -, mas ajudar a fazer história de libertação a quem a história foi roubada antes de tempo. Só nesse horizonte é que é possível tornar santa a Semana Santa.

(1) Robert W. Funk, Roy W. Hoover and the Jesus Seminar, The Five Gospels, The Search for the Authentic Words of Jesus, New York, Macmillan, 1993
(2) Albert Schweitzer, A Busca do Jesus Histórico, São Paulo, Editora Cristã Novo Século, 2003 1 (orig. 1906)
(3) Cf. Terésio Bosco, Alberto Schweitzer, Porto, Edições Salesianas, 1990

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Frei Bento Dominges, In: Jornal o Público, 5 de Abril de 2009

8 de abril de 2009

O Papa e a sida

O Papa não ignora os males da difusão da sida. Apontou um remédio não só moralmente mais correcto, mas mais eficaz


Grande clamor provocaram as palavras de Bento XVI sobre o preservativo e a sida. Já seria de esperar. Uma resposta a um jornalista tem mais destaque do que vários discursos que contêm o que da sua mensagem é mais relevante. Mas desta vez não são apenas os jornais a criticar o Papa, são ministros de Governos europeus, que o acusam de insensibilidade perante o flagelo da difusão dessa doença.
Uma acusação profundamente injusta, porém.
O Papa não ignora os males da difusão da sida. Apontou um remédio (disso não falam os jornais) não só moralmente mais correcto, mas mais eficaz. A educação e alteração de comportamentos, a abstinência e a fidelidade são caminhos que ninguém pode contestar como mais eficazes de combate a essa difusão. A experiência do Uganda, o país africano com mais sucesso neste âmbito, que optou por campanhas que privilegiam a alteração de comportamentos, demonstra-o. O preservativo não garante uma eficácia absoluta (segundo a OMS, a taxa de eficácia é de 76%) e as campanhas que o promovem como se fosse um "salvo-conduto" que torna inofensiva a promiscuidade criam uma segurança ilusória e contraproducente. A taxa de infecção da população passou aí de 15% em 1992 para 5% em 2004. Também me recordo de ter ouvido uma vez uma religiosa moçambicana dizer que, apesar de promoção do uso de preservativos chegar a todos os cantos do seu país (a ponto de não saber o que seria possível fazer mais no sentido dessa promoção), a difusão da doença não deixa de aumentar.
Parece-me muito pouco respeitoso - direi até ofensivo - para os povos em questão dizer que não é realista apelar à abstinência e fidelidade da população e juventude africanas em geral. Como se os africanos tivessem uma menor capacidade de dominar os seus instintos, capacidade que nos define como pessoas. Também neste aspecto a experiência do Uganda revela o contrário.
E se há grupos da população indiferentes a esse apelo do Papa, também esses grupos serão certamente indiferentes ao juízo moral que o Papa possa fazer sobre o uso do preservativo.
A Igreja Católica é a instituição que, à escala mundial, mais se tem dedicado à assistência às vítimas da sida (é responsável por cerca de um quarto das instituições a tal dedicadas). Em África tem-se destacado, entre muitas outras, a acção da Comunidade de Santo Egídio (o movimento a cujos esforços diplomáticos se ficou a dever o fim da guerra civil em Moçambique), que procura tornar tratamentos antiretrovirais acessíveis a todos os doentes.
Sobre a necessidade do acesso gratuito aos medicamentos também falou o Papa, mas isso não mereceu tanta atenção de jornalistas e ministros de países ricos...
Governos tão reticentes a "abrir os cordões à bolsa" quando se trata de apoiar o desenvolvimento de África (mesmo contra compromissos já assumidos) talvez não tenham muita autoridade para criticar a Igreja, que, com menos recursos, talvez faça mais do que qualquer deles pela promoção da saúde neste continente.

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Pedro Vaz Patto, In: Jornal o Público, 6 de Abril de 2009

O Cronista é licenciado em Direito pela Universidade Católica Portuguesa, é Juiz e Vogal da Comissão Nacional Justiça e Paz.

6 de abril de 2009

Lucetta Scaraffia, “A importância da verdade”


1. Certamente a característica da missão de Bento XVI é a verdade.
É-o para tudo, inclusive para o problema da SIDA e dos preservativos, um tema preocupante que – poder-se-ia imaginar facilmente – foi abordado durante a sua viagem à África. No meio das polémicas suscitadas pelas suas palavras, um dos mais prestigiosos jornais europeus, o britânico «Daily Telegraph», teve a coragem de escrever que, sobre o tema dos preservativos, o Papa tem razão. «Certamente a SIDA – lê-se no artigo – apresenta o tema da fragilidade humana e sob este ponto de vista todos devemos interrogar-nos sobre o modo de aliviar os sofrimentos. Mas o Papa é chamado a falar sobre a verdade do homem. É a sua função: ai dele se não o fizesse».

2. O problema da SIDA apresentou-se imediatamente, desde quando a doença se manifestou nos Estados Unidos nos primeiros anos 80, não só sob o ponto de vista médico, mas também cultural: a explosão da epidemia surpreendeu uma sociedade que acreditava ter derrotado todas as doenças infecciosas, e desde o início tocou um âmbito, o das relações sexuais, que há pouco tinha sido «libertado» pela revolução sexual. Com uma doença que punha em discussão o «progresso» alcançado e que se difundia rapidamente graças também à onda de cosmopolitismo que se estava a realizar com os novos e velozes meios de transportes. Ficou imediatamente claro que tal patologia era fruto de uma modernidade avançada e de uma profunda transformação dos costumes, e que talvez a luta para a prevenir tivesse que considerar também estes aspectos. Ao contrário, no mundo ocidental, as campanhas de prevenção foram baseadas exclusivamente no uso dos preservativos, dando por certa a obrigação de não exercer alguma interferência nos comportamentos das pessoas. O «progresso» não deveria ser colocado em discussão; nem na África, onde era evidente – e onde até agora é evidente, se se lerem com honestidade os dados da Organização Mundial de Saúde sobre a difusão da SIDA – que a distribuição de preservativos não é só por si suficiente para erradicar a epidemia.

3. O preservativo não é utilizado em África de um modo ‘perfeito’. – o único que garante 96% de defesa contra a infecção – de um modo ‘típico’, isto é, com a utilização descontinuada e inapropriada, que garante apenas uma defesa de 87%, dando, além disso, uma segurança que pode ser perigosa quando se estabelecem relações com outras pessoas. Como se sabe, a sida não se transmite apenas através da relação sexual, mas também através do sangue. Basta pois uma ferida, um pouco de sangue, para estabelecer a possibilidade de contágio. Torna-se igualmente necessário recordar, como é indicado nas pormenorizadas instruções de uso nas embalagens de preservativos, que estes se podem danificar facilmente com o calor – são feitos de borracha! – e também se foram manipulados por mãos enrugadas, como as de quem faz trabalhos manuais. Mas as indústrias farmacêuticas, tão rigorosas em assinalar estes perigos, são também as mesmas que apoiam o mito de que a difusão dos preservativos pode salvar a população africana da epidemia. Pode por isso compreender-se que todas as propostas de difusão do seu uso seja aceite com satisfação pelas suas empresas comerciais.

4. O único país da África que obteve bons resultados na luta contra a epidemia é o Uganda, através do método ABC, no qual A significa abstinência, B fidelidade (‘be faithful’) e C preservativo (‘condom’), um método, apesar de tudo, não inteiramente de acordo com a proposta da Igreja Católica. Até a revista Science reconheceu em 2004 que a parte mais conseguida do programa foi a mudança de comportamento sexual, com uma redução de 60% das pessoas que declaravam ter tido relações sexuais, e o aumento da percentagem dos jovens entre os 15 e os 19 anos que se abstiveram de relações sexuais. De tal modo que a revista escreveu: “Estes dados sugerem que a redução do número de parceiros sexuais e a abstinência entre os jovens não casados, juntamente com o uso do preservativo, constituíram os factores relevantes na redução da incidência do HIV”.

5. Muitos países ocidentais não querem reconhecer a verdade das palavras pronunciadas por Bento XVI seja por razões económicas – os preservativos custam dinheiro, enquanto que a abstinência e a fidelidade são obviamente gratuitas – seja porque receiam que o dar razão à Igreja num aspecto central do comportamento sexual possa significar um passo atrás naquela fruição do sexo puramente hedonista e recreativa que é considerada uma importante conquista do nosso tempo. O preservativo é exaltado para além da sua capacidade efectiva de deter a sida porque permite à modernidade continuar a acreditar em si mesma e nos seus princípios sem nada mudar. É precisamente porque tocam este ponto nevrálgico, esta mentira ideológica, que as palavras do Papa foram tão criticadas. Mas Bento XVI, que já o sabia muito bem, permaneceu fiel à sua missão, a de proclamar a verdade.
L’Osservatore Romano, 22.04.09

5 de abril de 2009

Mais Próximos Do Seu Coração


Entramos na Semana Santa lembrando a entrada de Jesus em Jerusalém, montado num jumentinho, aclamado com ramos e cânticos.

A Igreja prepara, nas leituras e liturgia de cada dia, uma semana onde nos podemos aproximar de Jesus nos últimos dias antes de regressar ao Pai.


Do Evangelho de hoje, que é já antevisão de toda a Paixão do Senhor, há um momento que me parece poder ajudar-nos a fazermo-nos próximos de Jesus, a estarmos ao seu lado neste momento de maior dor. Mais próximos do seu coração e da sua dor à medida que caminha para a expressão última do amor ao Pai e aos irmãos, no mistério de dar a vida por amor, por cada mulher, por cada homem, “por mim”. Aproximarmo-nos como o samaritano que não fica indiferente ao passar pelo judeu ferido à beira do caminho. Movido pela compaixão, liga as suas feridas deitando nelas azeite e vinho.

Jesus encontrava-se à mesa em Betânia quando uma mulher, trazendo um frasco de alabastro, derrama sobre a sua cabeça perfume de nardo puro de alto preço. Os discípulos indignam-se, cheios de doutrina, mas ainda com pouco coração. “Podia vender-se o perfume e dar o dinheiro aos pobres”. Jesus encosta-os à parede. “Não a atormentem. Ela fez o que estava ao seu alcance: ungiu antecipadamente o meu corpo para a sepultura.” Num gesto de afecto e de dor que lhe nasce no coração, une-se à dor do Senhor e responde ao amor com que Ele Se entrega por ela. Mais do que eles que O seguem de perto, foi ela quem se aproximou do seu coração ferido pelo que está para acontecer.

Também eu quero encontrar esta semana o meu gesto, o perfume de nardo puro que quero derramar sobre a cabeça de Jesus. O gesto que me faça próximo da sua dor, que possa ser consolo e gratidão pelo amor e pelo perdão.

BOA SEMANA SANTA

3 de abril de 2009

Casamento de homossexuais: direito ou equívoco?


‘Casamento de homossexuais: direito ou equívoco?’ – foi este o mote da discussão que teve lugar no ‘Puzzle Bar’ na passada terça-feira, dia 31, pelas 21h15. O encontro foi organizado pelo Centro Académico de Braga (CAB), enquadrado na actividade ‘Bate Papo Universitário’.
Os oradores convidados foram dois académicos da Universidade do Minho: Ana Brandão, socióloga, e Carlos Abreu Amorim, advogado e docente na mesma universidade.
Segundo Ana Brandão “a questão geracional e a educação tendem a dissipar os preconceitos e são propícias a uma maior abertura”. É exemplo disto a atitude de grande parte dos universitários, refere a socióloga com contentamento. “As mulheres tendem a ter uma maior aceitabilidade destas mudanças culturais”, acrescenta.
Carlos Amorim, contrariamente, fala de modismos e discursos acéfalos típicos do ambiente universitário e da vontade de pertencer a um todo. Em primeiro lugar, alerta para a forma como muitas vezes a questão é colocada: “passa-se a ideia que de um lado estão os preconceituosos e, do outro, os tolerantes e pós-modernos – não podemos colocar a questão nestes termos”, esclarece. “O casamento é um contracto (como a compra de uma propriedade e o aluguer de uma casa) com especificidades e a uma essência própria. O casamento como contracto será sempre uma união entre pessoas de diferentes sexos e não algo que se altere em função de uma moda”, explica o advogado.
A hipocrisia existe, segundo o Carlos Amorim, “quando se negam direitos patrimoniais, médicos e jurídicos aos homossexuais”. “A questão da adopção é exemplo disso, uma vez que vai contra o artigo 13º da Constituição da República Portuguesa, segundo o qual nenhuma pessoa pode ser discriminada em virtude da sua orientação sexual”, explica o advogado.

Uma questão política

Carlos Amorim fala ainda do jogo de interesses da agenda política que torna esta discussão mediática quando é conveniente. “A questão é intrinsecamente política: as associações e comunidades de gays e lésbicas têm sabido agir de forma estratégica ao saberem aproveitar as leis democráticas e o debate político para introduzirem a questão”. Referiu o caso de Espanha, em que “o primeiro-ministro Zapatero introduz a questão do casamento homossexual quando quer desviar as atenções da direita de Mariano Rajoy dos problemas económicos, e consegue-o”.
No contexto da política portuguesa, outro dado curioso para o advogado: no dia 10 de Outubro de 2008, o BE apresentou na Assembleia da República uma proposta de lei sobre o casamento homossexual, o PS rejeitou-a. Três meses depois, no contexto de uma grave crise económica e no emergir de casos polémicos que põe em causa a governação do país, o PS lança a mesma proposta para cima da mesa. “Aos políticos não interessa minimamente a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o que lhes interessa é a propaganda, o modismo e a estratégia política”, diz convictamente o advogado Carlos Amorim.
A socióloga Ana Brandão acredita que “o acesso ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma questão de tempo e, depois, virá a questão da adopção”. “Tratando-se de um sistema de valores e crenças representativo de uma sociedade num determinado tempo, a legislação pode ser alterada se for necessário”, explica.
A Alemanha, o Reino Unido, a Itália e a Suécia são exemplos de países que, não permitindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo, permitem a adopção por casais de gays e lésbicas.
“Na verdade, os gays e, mais facilmente, as lésbicas podem ter filhos biológicos”, lembra a investigadora Ana Brandão, “há formas de passar pela fechadura das leis”. “O Direito é uma força simbólica, mas abrir a porta ao casamento entre pessoas do mesmo sexo era esgotar o casamento enquanto tal”, concluiu Carlos Amorim.

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Texto da autoria da Organização do Bate-Pape Universitário, com a respectiva autorização.

  1. http://www.cab.com.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=248&Itemid=82