29 de novembro de 2009

ANO NOVO

Hoje é o primeiro dia do ano.

Há muitos anos a correr ao mesmo tempo: o ano civil, o ano lectivo, o ano fiscal. Hoje é o primeiro dia do ano litúrgico, o primeiro dia do Advento.
Ninguém está mais ou menos embriagado como no 1º de Janeiro, depois de uma noite de folia; ninguém está mais ou menos deprimido com o fim das férias e o regresso à escola ou ao trabalho; ninguém se torna mais ou menos criativo das contas, numa tentativa sempre falhada de ludibriar a máquina fiscal. Todos sempre cheios de bons propósitos, que nunca se cumprem.

Que tem de especial o primeiro dia do ano litúrgico? Que diferença há entre este primeiro dia e tantos outros “primeiros dias”? É que parece que os outros são, afinal, o fim e hoje é tempo de nos prepararmos, de começar realmente. A palavra Advento significa vinda. E não uma qualquer: é tempo de preparação da vinda do Menino Jesus, do Natal do Senhor.

Por isso, as nossas Igrejas vestem-se de roxo, até ao dia de Natal, cor da Esperança (na Quaresma, esperamos o Ressuscitado; quando alguém morre, esperamos a vida eterna). Por isso, deixaremos de cantar Glória nas Eucaristias, para que no dia de Natal o possamos voltar a cantar com todo o entusiasmo e alegria pelo nascimento do Jesus Menino. Por isso, devemos preparar os nossos corações para essa grande chegada, já anunciada e já vivida, mas nova em cada ano: vai nascer o Menino Jesus, o Jesus Cristo, o Messias, o Filho de Deus, nosso Senhor e Salvador.

(E as ruas vão-se iluminando e já se vão ouvindo as canções natalícias nos corredores dos shoppings – que, surpreendentemente, ainda falam do nascimento do Menino!)

Por ser um tempo de preparação e de espera, durante este período serão duas as figuras que nos acompanharão mais de perto na liturgia e nos ajudarão a esta disposição de coração: João Baptista, primo de Jesus, que veio antes d’Ele convidar-nos à conversão; e Nossa Senhora, a Virgem Maria, Sua e nossa Mãe, que disse sim e soube esperá-l’O.

As leituras de hoje já nos dirigem a esta preparação, já nos movem à Esperança n’Aquele que há-de vir.
Como podemos dispor o nosso coração para o dia da vinda de Jesus? Que sinais são estes de que Jesus fala aos Seus discípulos, que anunciam a chegada do Filho do homem?

As nossas Paróquias, os movimentos em que nos inserimos, os sites de oração, todos se mobilizam nesta época para que a vinda de Jesus seja vivida em comunidade, para que não seja uma experiência isolada.
E quem ainda não está inserido, procure e deixe-se encontrar pelo Senhor! Porque se sentimos que o Senhor nos chama, há lugar para cada um de nós na Igreja, porque a Fé em Jesus Cristo só pode ser vivida em comunidade.

Façamos deste primeiro dia do ano, o início de um ano diferente; deste Natal, uma redescoberta de Jesus e do Seu papel na nossa vida. Apoiemo-nos nos exemplos dos que O seguiram mais de perto e viveram com Ele – João Baptista, com quem brincou; Maria, que O esperou; José, que O educou – e na comunidade de que fazemos parte. Que o nosso propósito para este novo ano seja este: descobrir o Jesus que vai (re)nascer na minha vida.


Leituras: Jer 33, 14-16; Salmo 24 (25), 4bc-5ab.8-9.10.14 (R.1b); 1 Tes 3, 12 - 4, 2; Lc 21, 25-28.34-36

Nota1: o Advento começa no Domingo que ocorre entre 27 de Novembro e 3 de Dezembro e termina no Natal.
Nota2: este ano litúrgico que começa é o Ano C.

27 de novembro de 2009

S. João Berchmans

Não foi importante entre os seus contemporâneos nem conseguiu fazer alguma viagem perigosa em nome de Cristo. Não curou nenhum doente nem descobriu nenhuma Verdade de Fé. Não fundou, ou sequer reformou, alguma ordem ou diocese. Não aprendeu um dialecto desconhecido, nem defendeu algum povo indígena; não “levantou voo” na oração, nem se lhe abriu a camada de ozono para que ele pudesse ter visto algo menos natural que o ecrã deste computador …


Nasceu em Diest, na Bélgica, em 1599. Entrou na Companhia de Jesus com apenas 17 anos. Contudo, o seu sonho de anunciar o Evangelho na China terminou muito cedo, com uma forte infecção pulmonar, contraída durante os seus estudos em Roma.

Morreu a 13 de Agosto de 1621, com 22 anos.


Então porque é que se justifica estar a ler este texto sobre um rapaz tão normal?

Porque, durante a sua curta vida, ele fez tudo o que era banal de forma extraordinária! A Igreja não o esquece para lembrar que cada gesto pode ser mais do mesmo ou pode ganhar a carga dum verdadeiro milagre.


Hoje, 26 de Novembro de 2008, faz sentido tornar cada gesto num momento intencional de construção do Reino que tanto desejamos? O João Berchmans transformou a vidinha dele em algo pleno de sentido; nós, ou temos uma finalidade, um objectivo, nas nossas vidas e tomamos cada pequena decisão em função desse fim, ou andamos aqui a encher chouriços (literalmente a investir em bilhetes da lotaria do “Quem-Quer-Acordar-Frustrado-No-Dia-Dos-Seus-80-Anos?”).


Manuel Cardoso, sj

22 de novembro de 2009

Venha a nós o Vosso Reino...

Se no Evangelho deste Domingo, Pilatos não consegue ver um Rei no Jesus ferido, ainda hoje nos custa vê-lo como Rei de alguma coisa diante de Igrejas vazias, desempregos, guerras, famílias destroçadas… Como poderemos ainda chamar a Cristo: Rei e Senhor do Universo? Façamos uma leitura do tipo de poder de Jesus a partir das três virtudes teologais, pois elas “têm como origem, motivo e objecto imediato o próprio Deus.[1]

FÉ, ENTRE A LIBERTAÇÃO E A HOSPITALIDADE «O Evangelho é poder de Deus para salvação de todo o crente» (Rom. 1). A salvação é a libertação do que desfigura, diminui, destrói a vida. Jesus é o Evangelho vivo. Mostra-o no seu perdão, na sua vida, na sua alegria. É por isso que a salvação não está reservada para os que preencheriam certos critérios. Deus salva «todos os que crêem».
Mas será que tenho de acreditar como quem arranja um bilhete para entrar no céu? Não, a fé é um dom que se acolhe mais com espanto que com actos voluntários. É uma confiança muito simples pela qual, sentindo-nos acreditados por Deus, acreditamos num nexo silencioso na nossa vida, donde brota grande alegria, uma amizade indizível que nos restabelece, como o Bom Samaritano.

A realeza de Cristo é fonte, ao passo que a de Pilatos é dominação. Cristo é fonte da identidade e singularidade de cada coisa, pela qual “enche o Universo e dá consistência a todas as coisas” (Sab. 1), pois liberta-nos do que não somos.

ESPERANÇA, ENTRE O AMOR E A FIDELIDADE Numa época em que muitas vezes é difícil encontrar razões para ter esperança, o cristão deve saber «dar a razão da sua esperança a todo aquele que lha peça» (1 Pedro 3).
Mas em que consiste a esperança? A Bíblia define as características do Deus da aliança usando dois termos hebraicos: hesed e emet. Em geral, traduzem-se por «amor» e «fidelidade». A esperança bíblica e cristã não significa uma vida nas nuvens, o sonho de um mundo melhor. Não é uma simples projecção do que gostaríamos de ser ou de fazer. Leva-nos a ver as sementes deste mundo novo já presentes no dia de hoje, por causa do amor e fidelidade de Deus manifesta na vida de tantos homens e mulheres do nosso tempo.
A esperança é sobretudo a atenção a uma promessa que se está a realizar. Como alguém que, ao ver o despontar de algumas ervas na terra, deseja e espera uma árvore que crê despontar. E tal como Abraão teve de fazer da sua vida uma peregrinação, a esperança é viver e
m constante começo.
Por causa destes começos, «nós próprios gememos no nosso íntimo» (Rom. 8), mas é por eles que reconhecemos que, ao passo que o poder de Pilatos é um poder transitório, o de Cristo é pleno e infinito. Pois o Seu poder de mostrar o rasto de Deus em nós acompanha sempre os nossos altos e baixos, por um convite de esperança: “Ficai para sempre alegres, pois vou criar um povo cheio de entusiasmo” (Is. 65).


CARIDADE, ENTRE A ACÇÃO E A CONTEMPLAÇÃO A caridade vivida não é senão agir em conformidade com o que Deus faz em nós. O nosso amor não é permanente ou definitivo. E o amor mais pleno que podemos ter é quando reconhecemos que só Ele ama sempre, ao passo que o nosso amor é feito de impulsos de boa vontade, que nos fazem entrar numa corrente de água, anterior a nós. “O amor é o nome que damos ao que Deus faz em nós quando supera a desunião em que vivemos… O amor é, portanto, algo que nos acontece, algo de passivo, algo sobre o qual não exercemos domínio… O amor não é, p
ois, uma opção humana. É eleição de Deus.”[2] Esta ternura de Deus, motriz de qualquer gesto sincero de quem dá cor e vida ao mundo, foi o que levou o nosso Rei ao Seu trono: a Cruz. Parece um paradoxo vermos a frescura do amor a ser elevada no absurdo da morte do Filho de Deus, em nome da Lei de Deus. Mas tal como no Apocalipse, o livro de Deus só pode ser aberto com o sangue do cordeiro, também só as palavras que são acompanhadas pelo testemunho são dignas de não serem levadas pelo vento. Se Pilatos, sendo poderoso, dá decretos, Jesus, sendo poderoso, dá testemunho.
Assim, a caridade é o testemunho e transparência activa de um amor que se reconhece anterior a nós. Reconhecer a realeza de Jesus por uma contemplação que nos permita compreender que, embora tenhamos “lutas, por fora; temores por dentro. Deus, porém, que consola
os aflitos, consolou-nos” (2 Cor. 7)

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[1] Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (CCIC), n. 384
[2] BONHOEFFER, Dietrich - Ética

20 de novembro de 2009

Dia da Filosofia


A filosofia é excepcional, realmente única. Podemos alegar que é a mais atractiva de todas as disciplinas (puxando a brasa à minha sardinha) porque combina a atracção das ciências naturais, com a melhor atracção das artes.

Por um lado a filosofia parece-se com a ciência, pois o filósofo como o cientista, está à procura da verdade, pois que em ambas existem descobertas para serem feitas.
O filósofo não está só, ele sente o entusiasmo de ser herdeiro e membro de uma contínua tradição intrépida, em busca da verdade, da mesma maneira os cientistas de hoje são herdeiros do passado. Existem coisas que os actuais filósofos compreendem que nem os maiores filósofos da antiguidade conseguiram perceber.
Os cientistas não se sentem limitados pelo passado, mas sempre impelidos a olhar para a frente, para o futuro, a descobrirem algo de novo. É legitimo que cada filósofo nutra a esperança de contribuir nem que seja, com uma só pedra para a torre do conhecimento, e qualquer um de nós está apto a realizar na sua vida uma contribuição para o conhecimento.
E assim a filosofia partilha de algumas semelhanças e atracções com as ciências naturais, o prazer de procurar a verdade e o gosto de fazer novas descobertas.

Por outro lado também, a filosofia tem alguma da atracção que é própria das artes e das disciplinas humanísticas. Ao contrário das ciências, os clássicos da filosofia não definham, nem se tornam obsoletos, não se tornam memórias de um passado que já não se verifica. Se hoje, procurássemos nas Universidades aprender por exemplo, química aplicada ou física aplicada, não iríamos ler Empédocles ou Arquimedes, a ciência é selectiva depondo os seus clássicos. Mas isto já não acontece com a literatura. A literatura quando lê Homero ou Camões, não lê com o intuito de aprender curiosidades sobre as mentes passadas (como por vezes se faz em história da ciência). Na valorização dos clássicos a filosofia partilha da atracção das Artes. Nós lemos Platão e Aristóteles, não com um espírito de curiosidade histórica, mas porque queremos partilhar das suas ideias filosóficas.

A filosofia é a mais atractiva, porque em primeiro lugar combina o prazer da procura da verdade, e tal como na ciência há descobertas para serem feitas. E em segundo lugar combina também uma semelhança com as artes, uma disciplina humana em que as grandes obras, os grandes trabalhos não se tornam obsoletos com os tempos, mas fazem parte do edifício do conhecimento.

18 de novembro de 2009

Tomás Pereira e as pontes entre culturas

Natural de Famalicão, Tomás Pereira foi um homem que viveu a passagem do século XVII para o XVIII. Entrou na Companhia de Jesus em 1663. Passados três anos, depois de concluir o Noviciado, embarcou para a Índia onde prossegui a sua formação humanística.

Além de ser matemático, astrónomo, geógrafo e músico, sentia-se sobretudo como um padre jesuíta. Era um homem entusiasmado pela vontade de anunciar o Evangelho, que trazia dentro de si. Acabou, então, por ser enviado à China, um lugar onde o Evangelho estava por anunciar.

Na China, Tomás Pereira valeu-se dos seus conhecimentos musicais, mostrando enorme respeito pela cultura chinesa. Realmente, além de ter introduzido a música europeia na China, compôs música ao estilo chinês, escrevendo, pela primeira vez na história, música baseada em escalas pentatónicas com uma notação ocidental.

Nesse sentido, creio que estamos diante de um homem que soube fazer pontes entre culturas, ao ponto de ser convidado, em 1673, pelo Imperador Kang Hi para habitar a sua corte em Pequim, privilégio bastante escasso para os ocidentais habitantes da China seiscentista.

A sua capacidade de diálogo com culturas diferentes permitiu que um cristão se tornasse conselheiro do Imperador chinês. Talvez por isso tenha sido promulgado o célebre Édito da Tolerância da Religião Católica, em 1689, que permitiu o culto cristão no oriente.

Pessoalmente, fico fascinado, não tanto com os seus dotes intelectuais e com a sua erudição em áreas tão diversas do saber, mas sobretudo com a sua capacidade de estabelecer pontes entre culturas tão distantes entre si como o oriente e o ocidente de então. De facto, parece-me que Tomás Pereira foi capaz de ir muito para além do mero contacto entre o ocidente cristão, com toda a sua riqueza cultural, e a China. Tomás Pereira contribuiu para a comunicação entre as duas culturas, o que resultou num enriquecimento mútuo. Realmente, não só a música chinesa passou a ser escrita em notação ocidental, como a liturgia cristã se enriqueceu com os elementos da cultura chinesa.

Tomás Pereira faleceu na China, em 1708, onde permanece sepultado.

15 de novembro de 2009

Esperança, nem ingenuidade. Domingo XXXIII Tempo Comum.


“Naqueles dias…o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade”.

Os iluministas, há três séculos, tinham a convicção de que o mundo, a sociedade humana, guiada pela Razão, tinha um final feliz…era o mito do progresso da História. A esperança mudou-se em desilusão.

Hoje, na Europa, vivemos com aspirações muito mais humildes, como ultrapassar a crise em que estamos, legislar as relações afectivo-sexuais, enfrentarmos a imigração massiva vinda dos países em vias de desenvolvimento, regular as intervenções permissíveis no começo e fim da vida, etc.

Ao mesmo tempo, a frieza e secura espiritual do Velho Mundo é evidente, e previsivelmente a situação não será muito melhor nos próximos anos.
A família, um projecto frustrante. O cancro, uma ameaça constante. A depressão, sai de qualquer canto. O trabalho, uma escravidão. O sexo, uma obsessão que já até nos resulta aborrecida.

“Quando virdes estas coisas acontecerem, sabei que ele está próximo”

O Cristianismo não é uma religião ingénua, mas tem uma grande esperança no meio da dureza da vida: Cristo morreu, como tudo (há tantas formas de morte!); Cristo ressuscitou…com tudo. A vida, apesar das evidências que poderiam parecer-nos contrárias, tem vocação de plenitude…graças a Cristo.

O verdadeiro cristão não desespera, não foge. Pelo contrário, ama a vida porque a sua fé anuncia-lhe que aqui e agora (e não noutro sitio) começa a vida plena, a Glória de Deus.

Teilhard de Chardin escreveu o seguinte (tirado de O Meio Divino, um dos seus livros mais famosos) como expressão da verdade que, este domingo, nós celebramos:

Quando no meu corpo (e muito mais no meu espírito) começar a notar-se o desgaste da idade, quando se precipitar sobre mim de fora, ou nascer em mim, por dentro, o mal que apouca ou aniquila, no momento doloroso em que subitamente tomar consciência de que estou doente ou estou velho, nesse momento derradeiro sobretudo em que eu sentir que escapo a mim mesmo, absolutamente passivo nas mãos das grandes forças desconhecidas que me formaram, em todas essas horas sombrias, dai-me, meu Deus, o compreender que sois Vós (contanto que a minha fé seja assaz grande) que afastais dolorosamente as fibras do meu ser para penetrardes até à medula da minha substância, para me levardes para Vós.

Ó Energia do meu Senhor, Força irresistível e viva, visto que de nós ambos, Vós sois infinitamente o mais forte, é a Vós que pertence o papel de me queimardes na união que deve fundir-nos aos dois. Dai-me, pois, alguma coisa de mais precioso ainda do que a graça que vos pedem todos os vossos fiéis. Não basta que eu morra comungando. Ensinai-me a comungar morrendo.

Cristo morreu, Cristo ressuscitou, e nós ressuscitaremos com ele.

Bom domingo.

(leituras: Dan 12, 1-3; Hebr 10,11-14.18; Mc 13, 24-32)


14 de novembro de 2009

passados cento e dois anos...

Padre Pedro Arrupe. Certamente, neste blogue, já todos lemos algo sobre ele. Hoje, dia 14 de Novembro, comemoramos o centésimo segundo aniversário do seu nascimento. E isto constitui um motivo mesmo grande de alegria. Como já tivemos a ocasião de expor aqui a sua história, não a vou repetir novamente. Vou falar somente de um pequeno aspecto sobre o padre Arrupe.




Todos o conhecem por Pedro Arrupe ou Peru, nome que lhe chamavam em criança. Mas há um nome oculto. Um nome de Arrupe que poucos sabem. Pedro Arrupe Gondra, era o seu nome. Curiosamente, foi por sua mãe, Dolores, que falecera quando Pedro tinha apenas oito anos, que ele veio a ter este nome desconhecido, oculto, mas presente: Gondra.

Este nome escondido, remete-me para o escondimento onde Pedro Arrupe tratava todas as coisas com o “hóspede divino”, o Deus que trabalhava em si, sempre “a longo prazo”, nesse “ócio mais activo” onde Deus Se comunicava e oferecia. Tal como Gondra surge como nome/face oculta, diante da força da palavra Arrupe, também a sua vida oculta, tempo ganho diante de Deus, era a face oculta diante da transparência activa do amor de Deus, que Pedro foi.

Manifestava essa transparência na sua constante alegria simples, na forma como confiava nas pessoas, na sua convicção profunda de que deveríamos saber como combinar o serviço da fé com a promoção da justiça, no seu amor concreto à Igreja, na sua proximidade familiar com Deus.

Efectivamente os grandes homens não são os que mostram o que valem, mas os que acreditam na validade de todos os outros e colocam todo o seu empenho nessa descoberta por parte dos que desconhecem ser vasos de barro, habitados por um precioso tesouro.

Uma vida destas não se improvisa. Começa no oculto, no não dito, nesse espaço onde as palavras são acção. ”Senhor, a Tua imagem sobre mim bastará para mudar-me.”

12 de novembro de 2009

Crítica à Eutanásia




Na opinião pública a Eutanásia tem vindo a ganhar maior notoriedade. Têm-se publicado livros, têm saído artigos, e tem sido tema de acessos debates. Dos argumentos a favor, destaca-se o filósofo Peter Singer. Dos argumentos contra destaca-se melhor, na minha opinião, o filósofo David Oderberg, que no seu livro Ética Aplicada faz uma critica ao argumento do Peter Singer em defesa da eutanásia. Trago pois aqui duas citações de Oderberg em que ele critica o argumento de Singer :

"É este o principal argumento a favor da eutanásia voluntária: Todos os direitos são alienáveis; existe o direito à vida; portanto, o direito à vida é inalienável. Se uma pessoa sã de mente, capaz de pensar racionalmente, de avaliar com todo o cuidado a situação em que se encontra, tendo à sua disposição toda a informação relevante, toma deliberadamente a decisão de morrer, decisão essa que não foi tomada em resultado de coacção, ou de qualquer influencia indevida, e que é expressa por essa pessoa de forma clara e persistente, devemos considerar que essa pessoa alienou o seu direito à vida. (…) Reflectindo um pouco sobre o assunto, contudo, compreendemos que a ideia de que todos os direitos são alienáveis não pode ser verdadeira. A principal analogia a que recorrem os defensores da eutanásia é a analogia com os direitos de propriedade. Se o direito à propriedade é alienável, por que motivo não o é igualmente o direito à vida? Uma premissa que normalmente se encontra neste argumento é a de que o direito à vida mais não é do que uma espécie de direito de propriedade, dado que nós somos proprietários do nosso corpo. (…) Para os defensores da analogia vida/propriedade, o problema consiste no facto de existirem, apesar de tudo, dissemelhanças relevantes entre o direito à vida e o direito à propriedade, e no facto de as semelhanças que existem entre os dois serem em apoio da inalienabilidade do direito à vida."1

"O ponto em que a analogia com a vida termina reside, contudo, no facto de, embora a pessoa possa indubitavelmente alienar o seu direito a este ou àquele bem (…) não pode alienar o seu direito à propriedade em geral, considerado independentemente da alienação de determinados bens. Uma pessoa não pode declarar validamente «Renuncio ao meu direito de, enquanto ser humano, ter bens que me pertencem». Alienar o direito que se tem a este ou àquele bem não pressupõe alienar o direito à propriedade em geral, sendo portanto compatível com a manutenção desse direito. Por outro lado, uma alegada alienação do direito à vida específica que se tem pressupõe uma alegada alienação do direito à vida em geral, dado que é impossível ter mais do que uma vida. Assim, pois, enquanto a alienação deste ou daquele bem em nada afecta o direito à propriedade em geral, a alegada alienação da vida específica que o leitor tem afecta o seu direita à vida em geral, bem como a atitude que o leitor adopta relativamente a tal direito. Há portanto uma distinção importante a fazer entre os dois tipos de direitos, que permite perceber por que motivo se podem alienar certos bens, mas se pode, no mesmo sentido, alienar uma certa vida."2

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1. ODERBERG, S. - Ética Aplicada. Lisboa: Principia, 2009, p. 76 - 77.
2. ODERBERG, S. - Ética Aplicada. Lisboa: Principia, 2009, p. 77 - 78.

10 de novembro de 2009

Porquê Deus se Temos a Ciência?


Está à venda, em todo o país o livro Porquê Deus se Temos a Ciência?

O primeiro livro da colecção Rumos do Pensamento, com coordenação editorial do Professor Doutor Manuel Curado, reúne textos de diversos especialistas nacionais e trata do diálogo entre Ciência e Religião. Este livro tem contributos de Manuel Curado (Org.); Alfredo Dinis; Álvaro Balsas; Artur Galvão; Francisco Teixeira; Miguel Vieira; Paulo Alexandre e Castro; Sofia Reimão.

Deixamos o leitor com um excerto do texto:
Deus não se vai embora. Todas as pessoas mais cedo ou mais tarde têm de ter uma posição sobre a existência de Deus. Não se conhece nenhuma sociedade que não tenha crenças e comportamentos religiosos. Estes dois factos são extraordinários. Se existissem excepções, a vida humana seria radicalmente diferente… Seja como for, a relação entre os seres humanos e o religioso é inesgotável. O presente volume procura compreender alguns dos aspectos dessa relação…
Estamos perante um choque de titãs. A explicação religiosa da realidade não parece admitir a explicação científica, e vice-versa. Deriva isto de vivermos num mundo que só tem uma verdade? Deriva isto das limitações das estruturas cognitivas dos seres humanos? Deriva isto do estado de conhecimento científico que alcançámos? Ninguém tem ainda a certeza de como responder a estas questões. Não sabemos se a aparente incompatibilidade entre a Religião e a Ciência é circunstancial ou constitutiva. O debate está aberto e, tanto quanto pode ser percebido, está para durar.

Manuel Curado

Coordenador Editorial da Colecção Rumos do Pensamento

Fronteira do Caos Editores

Com coordenação editorial do Professor Doutor Manuel Curado vai ser lançada esta semana a colecção Rumos do Pensamento. A presente colecção visa publicar textos do mais alto nível científico e académico, com amplitude suficiente para abarcar diversas áreas do saber, como a Filosofia, a Bioética, Sociologia, Ciências Cognitivas, Medicina ou a Teologia, só para citar alguns. Os livros a publicar serão de autores nacionais e internacionais, estando prevista a publicação de três livros até Fevereiro de 2010. O primeiro livro desta colecção intitula-se «Porquê Deus se Temos a Ciência?» e consiste numa antologia de textos, escritos por diversos especialistas acerca do diálogo entre ciência e religião



Breve Curriculum Vitae
do Professor Doutor Manuel Curado

Professor da Universidade do Minho, Auditor de Defesa Nacional, Doutorado cum laude pela Universidade de Salamanca, Mestre pela Universidade Nova de Lisboa, Licenciado pela Universidade Católica Portuguesa, de Lisboa, e titular do Curso de Alta Direcção para a Administração Pública. Autor dos livros Direito Biomédico (2008), Luz Misteriosa: A Consciência no Mundo Físico (2007) e O Mito da Tradução Automática (2000). Editor dos livros Questões Actuais de Bioética (2009), Cartas Italianas, de Verney (2008), Mente, Self e Consciência (2007) e Consciência e Cognição (2004). .

8 de novembro de 2009

O Senhor cuida


Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro a observar como a multidão deitava o dinheiro na caixa. Muitos ricos deitavam quantias avultadas. Veio uma pobre viúva e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante. Jesus chamou os discípulos e disse-lhes: «Em verdade vos digo: Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros. Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver».


O sentido do Evangelho de hoje é quase demasiado evidente. Eles deitaram apenas do que lhes sobrava, ela deitou tudo quanto tinha. E claro, não é difícil tirar uma lição deste excerto para uma atitude de vida: Uns dão-se com meias medidas, outros entregam-se totalmente.
Em qual dos dois conjuntos queremos estar?

É uma lição possível. Mas vou procurar ainda outro sentido, ou aprofundar o mesmo.

Uma das leituras que acompanha hoje o Evangelho, a primeira, narra o encontro de Elias com a viúva de Sarepta:

Naqueles dias, o profeta Elias pôs-se a caminho e foi a Sarepta.
Ao chegar às portas da cidade, encontrou uma viúva a apanhar lenha.
Chamou-a e disse-lhe:
«Por favor, traz-me uma bilha de água para eu beber».
Quando ela ia a buscar a água, Elias chamou-a e disse:
«Por favor, traz-me também um pedaço de pão».
Mas ela respondeu: «Tão certo como estar vivo o Senhor, teu Deus, eu não tenho pão cozido, mas somente um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite na almotolia. Vim apanhar dois cavacos de lenha, a fim de preparar esse resto para mim e meu filho. Depois comeremos e esperaremos a morte».
Elias disse-lhe: «Não temas; volta e faz como disseste. Mas primeiro coze um pãozinho e traz-mo aqui. Depois prepararás o resto para ti e teu filho. Porque assim fala o Senhor, Deus de Israel: ‘Não se esgotará a panela da farinha, nem se esvaziará a almotolia do azeite, até ao dia em que o Senhor mandar chuva sobre a face da terra’».
A mulher foi e fez como Elias lhe mandara; e comeram ele, ela e seu filho. Desde aquele dia, nem a panela da farinha se esgotou, nem se esvaziou a almotolia do azeite, como o Senhor prometera pela boca de Elias.

O Senhor cuida da vida de Elias e da vida da viúva de Sarepta e da sua família. Ela sabe que não pode dar o que Elias lhe pede, pois o que tem já nem para ela e para o seu filho lhe chega. Mas o Senhor promete, pela voz de Elias, o seu cuidado. Não se esgotará a panela da farinha, nem se esvaziará a almotolia do azeite. De tão pouco que tem, não se esgotará. E a viúva, confiada no cuidado do Senhor, faz como o profeta lhe pede. Comeram ele, ela e seu filho e desde aquele dia nem a panela da farinha se esgotou, nem se esvaziou a almotolia do azeite.

A sabedoria deste Evangelho não está em dar tudo quanto se tem irreflectidamente, nem em levar o cristão à penúria por dar todos os bens que possui como oferta no templo, censurando aqueles que dão apenas parte dos seus bens. Não se reduz também, contudo, à lição mais patente – “uns dão-se com meias medidas, outros entregam-se totalmente. Em qual dos dois conjuntos queremos estar?”.

A sabedoria deste Evangelho está antes em dar tudo o que o Senhor nos pede – seja parte do que se tem, seja tudo, seja a própria vida – e não apenas do que nos sobra. Sabendo que Deus lhe pede – como pedia Elias, como alguém que pede um pedaço de pão –, a viúva do Evangelho dá quanto tem para se sustentar. Nem pode dar do que lhe sobra, pois nem tem para que lhe sobre. Restam-lhe duas alternativas, ou guardar para si o dinheiro que tem, ou dá-lo ao Senhor, confiada de que Ele cuidará. Como no episódio da viúva de Sarepta, soa o espanto pela confiança desta mulher. Todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento.

No seu amor, o Senhor promete cuidar, das minhas coisas e de mim mesmo. Dos meus bens, dos meus assuntos, das minhas dificuldades, da minha própria vida no seu amor, não me deixará morrer.

Há que saber gerir quanto temos e saber dispor para o nosso sustento, sustento da vida que é dom de Deus. E se virmos na vida o dom de Deus e a vivermos como tal e em resposta de gratidão, essa resposta, dada em tantas palavras e actos, não é menos dom total, nem a nossa oferta é do que nos sobra, mas é a vida toda. Mas que esse saber gerir aquilo que temos e saber dispor para o nosso sustento não tire a nossa confiança quando o Senhor nos pedir algo que nos parece ser de mais, que não se ponha entre o que o Senhor nos pede – como quem pede um pedaço de pão – e aquilo que, confiados no cuidado do Senhor, nos dispomos a oferecer, seja do que é material, seja do nosso tempo e forças, da nossa vitalidade, seja a própria vida.


Bem-aventurada esta mulher que deteve sobre si o olhar do Senhor.


4 de Outubro de 2009 - Dom XXXII do Tempo Comum
LEITURA 1 Reis 17, 10-16

SALMO RESPONSORIAL Salmo 145 (146), 7.8-9a.9bc-10
LEITURA II Hebr 9, 24-28
EVANGELHO Mc 12, 41-44

6 de novembro de 2009

A Mente e a Moral


No princípio do século XX, o famoso filósofo inglês G.E. Moore, criticou no seu livro Principia Ethica o naturalismo ético. Isto porque a bondade, que para Moore era o valor ético fundamental, não podia ser definida em termos naturais. Ou seja, que a bondade era indefinível e não analisável e portanto a ética seria autónoma, irredutível às ciências naturais ou até mesmo à metafísica. Esta era a celebre falácia naturalista de Moore, cometida pelo naturalismo ético ao querer definir a bondade.
Muitos filósofos foram influenciados pelo pensamento de Moore de que a ética como campo filosófico estava quase totalmente separado da psicologia e da sociologia.

Contudo hoje em dia vários filósofos da moral pensam que é necessário prestar atenção aos recentes trabalhos da psicologia, em especial os da psicologia cognitiva. Alguns desses filósofos como John Deigh, Andy Clark ou Paul Churchland, tentam mostrar como o trabalho actual das ciências cognitivas não só contribui, como também se cruza com a reflexão filosófica da moral.
Piaget e Kohlberg fizeram uma reflexão muito interessante na psicologia moral, mas as suas contribuições foram em grande parte à margem das correntes principais da psicologia, como também é verdade para grande parte da psicologia social que tem tocado em questões morais.

Ultimamente tem havido um grande aumento do interesse na racionalidade moral por parte das ciências cognitivas e das psicologias do desenvolvimento.
A racionalidade moral é uma das mais difíceis e complexas formas de racionalidade, e qualquer teoria que seja forte sobre a racionalidade terá inevitavelmente que se confrontar com ela. Pois uma coisa é mostrar como a mente consegue fazer cálculos matemáticos, outra coisa é mostrar como consegue a mente formar juízos num dilema moral. A tentativa de tornar as ciências cognitivas relevantes, para a actual racionalidade humana, tem despoletado o interesse das ciências cognitivas na filosofia moral. Continuará certamente este interesse a prolongar-se nos tempos futuros e trazer-nos-á, desejo eu, abundantes frutos.

3 de novembro de 2009

3 de Novembro, Beato Rupert Mayer, S.J.

Apresentamos aqui uns dados biográficos sobre este grande jesuíta do século vinte.


Nasce em Estugarda em 1876, filho de boa família.
Deseja entrar
na Companhia de Jesus logo no Ensino Secundário, apesar de seu pai não o permitir. Estuda Filosofia e Teologia nas Universidades de Friburgo, Munique e Tubinga. E, em 1899,
é ordenado sacerdote, sendo destinado a uma paróquia.
Rupert volta, então, a pedir a admissão para ingressar na Companhia, mas esta é-lhe recusada. Volta a tentá-lo no ano seguinte, obtendo a licença tão desejada. Aos 24 anos, entra no noviciado dos jesuítas, na Áustria… pois a Ordem estava proibida na Alemanha. Depois dos dois anos de noviciado, amplia os seus estudos de Teologia na Holanda,
e mais tarde percorre a Alemanha, a Suiça e a mesma Holanda como missionário popular.
Em 1914, oferece-se ao exército alemão como capelão dos soldados enviados à frente. Numa das contendas, tenta evitar que uma granada estale sobre um soldado, e consegue-o…perdendo ele mesmo a perna esquerda. Levará uma prótese até a morte. É condecorado com a Cruz de Ferro pelos seus serviços à nação. Isto facilitou a volta da Companhia, como instituição, ao seu país.
Quando terminou a Primeira Grande Guerra, dedicou-se por completo a várias actividades na igreja dos jesuítas em Munique: retiros, Exercícios Espirituais, Congregações Marianas de homens e de mulheres, atenção religiosa e social às multidões de imigrantes rurais que se aglomeravam na periferia da cidade, horas e horas no confessionário…
Mais tarde, na época em que o Nacional-Socialismo começa a surgir, Rupert participa nos meetings nazis, e discute a sua ideologia em público. Assim, acabar por ter recorrentes problemas com os serviços de segurança do partido nazi, sendo, em diversas situações, preso. Chegam a fechá-lo no Campo de Concentração de Sachsenhausen em 1937, por temerem a sua morte naquele local, enviam-no para o mosteiro de Ettal.
Em 1945, os Aliados libertam-no. No mesmo ano, mais concretamente no dia 1 de Novembro, dia de todos os santos, quando celebrava a missa, Rupert torna-se vítima de um enfarte. Tinha, então, 69 anos.
Foi beatificado por João Paulo II em 1987.

2 de novembro de 2009

Fé, ciência e futuro.

Estamos no ano internacional da astronomia, que comemora os 400 anos da invenção do telescópio de Galileu. Foi neste contexto que o Papa Bento XVI recebeu, na passada sexta-feira, um grupo de astrónomos do mundo inteiro que participaram num encontro promovido pelo Observatório Astronómico Vaticano.
Ao contrário do que possa parecer, a Igreja não está arredada da ciência. Homens da Igreja foram durante séculos promotores e executores de variados avanços científicos. É verdade que ela é também culpada de muitos injustos juízos e sentenças, não faria sentido nenhum negá-lo. É inútil pretender que a história da Igreja deve-se ser uma história de puros e perfeitos. Não! Ela é uma história de homens, isso sim, à procura de aprender de Deus a identidade e o sentido da vida num universo tão extenso, insondável e maravilhoso.
Por isso, nesta ocasião, retomou-se o caso Galileu, para que se perceba claramente em que consistiu a polémica que a Igreja teve com este cientista. Porque se nós, Igreja como um todo, somos acusados e reconhecemos as nossas falhas, então devemos ter, também, um sentido crítico e um interesse em ir até ao fundo das questões e perceber exactamente onde houve engano. Por outro lado, convém estar atento e evitar que se repitam, como aconteceu no passado, manipulações que querem dar uma imagem da Igreja como “inimiga da ciência”.
O Papa falou, neste encontro, da sua esperança no caminho a que podem levar “o assombro e exaltação que estão destinados a ser os frutos deste Ano Internacional da Astronomia”. A capacidade de nos admirarmos e espantarmos com o universo e com o mistério profundo da nossa existência é o início de uma jornada infinita que faz de nós mais humanos e mais divinos, filhos de um mesmo Criador e, para sempre, irmãos. Este é o mais nobre horizonte de toda a acção humana. Não tem que haver, portanto, nem corte de relação nem incompatibilidade entre fé e ciência. Pode é haver o desejo de um futuro cada vez melhor.

1 de novembro de 2009

Sede felizes, sede santos!

Hoje e amanhã, celebramos, em Igreja, a Solenidade de Todos os Santos e a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos.

Que nos quer dizer a Liturgia com esta proximidade? Hoje, somos convidados a venerar as mulheres e homens que a Igreja oficialmente considera como exemplo e modelo de uma vida Feliz, de uma vida entregue aos outros, ao mundo, por amor a Cristo.

Cada um de nós conhece bem de perto alguém com estas qualidades e, por isso, depois de celebrarmos os Santos, comemoramos os Santos “anónimos” do mundo, que nós tão bem conhecemos, que passaram fazendo o Bem e deixando um rasto de Amor, Esperança e Fé.

Então, hoje e amanhã são dois dias de grande alegria e de acção de graças.


Afinal, o que é ser Santo? Temos a ideia dos mártires, das religiosas e religiosos, dos místicos, de alguém extraordinário, quase mitificado. Muitas vidas com histórias muito diferentes. De comum tinham isto: mulheres e homens normais, como nós, que se deixaram tocar pelo Amor de Deus e se converteram a Ele, entregando-Lhe as suas vidas. E esta entrega foi específica de cada um, conforme a sua identidade e aquilo que sentia que o Senhor o chamava.


O Papa João Paulo II disse que a Igreja precisa de santos, Santos que amem apaixonadamente a Eucaristia e que não tenham vergonha de tomar um copo ou comer uma pizza no fim-de-semana com os amigos.

Ser Santo é, simplesmente, ser feliz. Viver cada dia completamente entregue àquilo que nos é pedido, com uma alegria tão contagiante que não deixe os outros indiferentes. E quando nos perguntarem porque somos tão felizes – está na moda, agora, andar mais ou menos ou estar em baixo – temos de responder: Por ti! Porque Deus só nos pede isto: que O amemos, amando-nos uns aos outros. E, depois, contagiar o mundo com essa felicidade.


Não foi isto que fizeram Todos os Santos, que hoje celebramos? E não foi isto que fizeram aqueles que nos eram tão próximos e queridos e já estão junto do Pai? Foi.


No Evangelho de hoje, Jesus ensina os discípulos, dizendo-lhes quem é feliz: os simples, os humildes, os que choram, os que lutam pela justiça e são perseguidos porque a amam, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz.


Não somos nós capazes disto? Não celebramos hoje e amanhã tantos como nós que foram capazes disto? Não conhecemos nós, mesmo ao nosso lado, alguém assim? Claro que sim.


Ser Santo é ser Feliz. É encontrarmo-nos com o Amor de Deus, com Jesus, e não ficar quieto; levá-lo e dá-lo, porque é um Amor grande demais para não ser partilhado.


Vede que admirável amor o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto.


E somo-lo de facto!



imagem: pormenor da tapeçaria da Catedral de Nossa Senhora dos Anjos, Los Angeles


Leituras: Ap 7, 2-4.9-14

Salmo 23 (24), 1-2.3-4ab.5-6 (R. 6)

1Jo 3, 1-3

Mt 5, 1-12a