30 de novembro de 2010

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo



Décimo primeiro equívoco: a incompatibilidade entre criação e evolução


1. Darwin deixou-nos o desenho da ‘árvore da vida’ que pressupõe que os processos evolutivos seguem uma direcção vertical. Desenvolvimentos em genética mostram com conclusiva evidência que as transferências genéticas ocorrem não apenas verticalmente mas também horizontalmente, o que torna o processo evolutivo muito mais complexo do que o próprio Darwin supunha. Poderemos então afirmar ainda que há uma direcção na evolução que conduziu ao aparecimento da Humanidade? Não terá todo o processo evolutivo sido apenas uma sequência de acontecimentos aleatórios nos quais não há lugar para qualquer perspectiva teleológica e, por conseguinte, para a ideia de um Deus criador? Autores de renome quer na área da biologia, como Richard Dawkins e Stephen Jay Gould, quer de outras áreas como a Filosofia, representada por Daniel Dennett, não têm qualquer dúvida em afirmar que a teoria da evolução das espécies exclui a existência de um Deus criador. Criação e evolução excluem-se reciprocamente.

2.
O que podemos responder a esta tese é que a evolução se dá por um processo de interacção entre o acaso e a necessidade imposta pelas leis naturais. O acaso verifica-se sobretudo ao nível molecular através da deriva genética aleatória. Também as mutações genéticas, fonte de novidade no processo de selecção natural, têm o mesmo carácter aleatório. Algumas destas mutações são benéficas para a sobrevivência do organismo, outras são nocivas, outras ainda neutras. Como afirma Denis Edwards, “sem estas mutações aleatórias não haveria evolução através de selecção natural, uma vez que não haveria variações susceptíveis de ser transmitidas à geração seguinte.” (El Dios de la Evolution, Salterrae, p. 58). Mas este processo não se verifica apenas de uma forma aleatória. A selecção natural tende a preservar as mutações que são benéficas para a sobrevivência do organismo na sua adaptação ao meio ambiente e a eliminar as que não nocivas. Além disso, os processos aleatórios tornam reais algumas das possibilidades já presentes nas leis da natureza. Esta hipótese torna possível conceber a existência de seres vivos em outros planetas que tenham sido o resultado de processos evolutivos que tenham actualizado outras potencialidades não actualizadas na Terra.

3. Os autores que negam a compatibilidade entre evolução e criação partem do pressuposto de que, segundo os crentes, o processo evolutivo que conduziu ao aparecimento das diversas espécies, sobretudo a espécie humana, deveria ser unidireccional e contínuo, sem desvios nem recuos nem becos sem saída, e claramente racional e identificável pela ciência. Mas por que razão uma racionalidade não linear, incluindo elementos aleatórios, é incompatível com a existência de um Deus criador inteligente e racional?

4. Deus poderia ter criado o mundo em seis dias, como afirmam os criacionistas, mas hoje sabemos sem margem para dúvidas que não o fez. Deus criou, ou melhor, continua a criar, quer o universo quer a vida por um processo evolutivo. Para que seja possível um tal processo, a interacção entre acaso e necessidade parece ser uma boa escolha por parte de Deus. Como afirma D. Bartholomew, “a evolução é a condição imprescindível para a vida tal como a conhecemos. Se o ADN fosse completamente invariável, e todas as características se tivessem reproduzido sem defeito algum, nada se teria desenvolvido a partir das algas primitivas. Além disso, mesmo que alguma das espécies existentes tivesse sido criada de uma vez por todas - e, por conseguinte, sem qualquer mutação celular-, por um mago divino, não possuiria uma diversidade genética suficiente para que os seus membros pudessem adaptar-se a condições ambientes em mudança. Uma espécie assim, condenada a repetir-se a si mesma sempre do mesmo modo, e incapaz de se adaptar, sucumbiria à primeira mudança ambiental.” (God of Chance, SCM, pp. 97-98).

5. Há no processo de evolução biológica das espécies algo de semelhante ao que acontece numa viagem que eu possa fazer de carro de Braga para Lisboa. Muitos dos acontecimentos que sucederão durante a viagem são aleatórios, imprevisíveis, e até mesmo contraditórios com a ideia de uma viagem planeada para chegar de Braga a Lisboa. A meio da viagem posso lembrar-me que uma pessoa amiga residente em Santarém faz anos nesse dia, e que eu posso ir saudá-la através de um simples desvio de rota. Entretanto, eu poderia lembrar-me de que me esquecera de parar em Fátima para comprar algo que necessitava levar para Lisboa, e assim ao deixar Santarém faria inversão de marcha para entrar em Fátima, após o que retomaria a marcha na direcção de Lisboa. Qualquer observador que seguisse os meus movimentos seria incapaz de predizer que eu, desde o início da viagem, tencionava dirigir-me para Lisboa. Com efeito, os movimentos atrás descritos pareceriam erráticos e aleatórios – e, em parte, eram – de tal modo que pela sua análise meramente empírica não se poderia encontrar neles qualquer intencionalidade. Somente quando a minha viagem terminasse em Lisboa e alguém voltasse a analisar os meus movimentos poderia compreender que havia desde o início uma intenção mas que essa intenção se realizou através de uma lógica não linear, e de movimentos inesperados ou até mesmo incompreensíveis.

6. Conclusão: a biologia não tem que detectar a existência de qualquer teleologia na evolução da vida. As intenções de Deus, como as humanas, não são factos biológicos. Acresce ainda que a intencionalidade de um processo ou movimento não está necessariamente nos pormenores mas sim no movimento global. O Deus criador não é um agente que está a agir continuamente em cada mutação genética. A ideia de que a criação implica que o criador guia de forma permanente e determinista todos e cada um dos factos evolutivos não corresponde à ideia de criação dos cristãos. Além disso, o carácter teleológico da evolução, não sendo unidireccional nem excluindo o elemento aleatório, é compreensível num olhar que parta do presente para o passado, e não vice-versa.

7. Há ainda um outro modo de compreender de que forma se pode compatibilizar criação e evolução por selecção natural. Dadas as possibilidades de mutações e transferências genéticas se produzirem de forma aleatória conduzindo ao aparecimento de uma infinidade de seres vivos, poderemos pensar que a evolução se tenha desenvolvido em milhares de milhões de planetas em todo o universo, e que em cada um desses planetas o processo evolutivo tenha conduzido a formas de vida inteiramente diversas. S. Jay Gould afirmou que se a evolução se repetisse na Terra, iria dar origem a seres vivos diversos dos que hoje conhecemos. Segundo o autor, a evolução biológica é irrepetível. Nada há de estranho em admitir que há milhares de milhões de processos evolutivos nos quais os elementos aleatórios estão fortemente presentes, e que apenas alguns esses processos evolutivos conduzem ao aparecimento de seres conscientes e capazes de conduzir debates sobre a evolução como nós, seres humanos. Deus seria ainda a condição de possibilidade e de inteligibilidade de todos os processos produtivos que se actualizariam no espaço e no tempo.

Alfredo Dinis

29 de novembro de 2010

Vem aí o Natal - I


VEM AÍ O NATAL – I


Até ao século VI, celebrava-se a festa do Nascimento de Jesus a 6 de Janeiro ao mesmo tempo que a adoração dos Reis Magos (chamada Pequena Teofania) e que o Baptismo do Senhor (Grande Teofania). Seguidamente, a fim de acentuar a natureza humana de Jesus, instituiu-se a festa do Natal a 25 de Dezembro. Na iconografia, cedo se começou a representar todo o mistério à volta da encarnação de Jesus, onde as regras do espaço e do tempo não são tidas em conta.

Tomemos como exemplo este ícone do século XVI, da região de Vologda, Rússia, Museu Tretiakov, Moscovo. Os acontecimentos cronologicamente distintos (a intervenção da Santíssima Trindade, as dúvidas de José, o nascimento de Jesus, o anúncio e adoração dos pastores, a vinda dos Reis Magos) são representados simultaneamente com o intuito de nos fazer participar do hoje eterno de Deus. A falta de proporção, a perspectiva invertida, a intencional estilização da natureza são aproveitadas pelo iconógrafo para realçar o tema central e nos dizer, aqui, que a Encarnação de Deus dá ao universo um sentido novo que é o fim e a razão de ser da sua existência: a transfiguração futura.

Por motivos cristológicos o Concílio de Éfeso, em 431, declara Maria como Mãe de Deus (Thetokos). Daí que Maria, que até então era representada com o Menino Jesus sobre os joelhos para significar o parto virginal e indolor, agora aparece deitada como é natural numa mulher que acaba de dar à luz. A posição central e as exageradas dimensões de Maria afirmam que ela é a Mãe de Deus. A Virgem Maria, deitada na mãe terra sobre um leito vermelho, é a sarça ardente que arde sem se queimar; ela é Mãe sem perder a virgindade.

O Menino Jesus foi envolto em faixas e colocado na manjedoura. Mas há um outro momento em que Jesus é envolto em faixas, ao ser colocado no túmulo, e, por isso, a manjedoura tem a forma de um túmulo. O iconógrafo faz-nos cair na conta de que este Menino é o homem Deus que vencerá a morte e será alimento Eucarístico para todos.

28 de novembro de 2010

esperar é um modo de chegares. um modo de te amar dentro do tempo

Neste domingo começamos o Advento. Advento, vem do verbo latino advenire, que quer dizer chegar. O advento é um tempo de espera dAquele que vem. Neste sentido, a primeira atitude que a liturgia deste domingo nos quer propor é a da vigilância. Curiosamente a palavra vigiar assusta à primeira vista, parece que somos chamados a vigiar quando algo nos ameaça. Mesmo este Evangelho, se nos esquecermos que é Jesus quem o diz, pode dar-nos uma imagem assustadora de Deus. Mas que diz Jesus que nos mostre a vigilância de outra forma?

Vigiar evoca a presença de algo que vem a nós, algo a que é preciso estar atento. Neste caso é o Filho do Homem que vem a nós. Ora, em S. Lucas, quando Jesus chora sobre Jerusalém, a Sua tristeza deve-se ao facto dos habitantes da cidade santa não terem reconhecido o tempo em que foram visitados por Aquele que lhes podia dar a paz que desejavam. Vigiar é uma forma de levarmos a sério as nossas sedes mais profundas, não é um mandato inteiramente exterior, mas uma expressão do desejo de vida em plenitude que só se realiza no Filho do Homem. Mas como vigiar?

Na leitura de Isaías somos convidados a ver em Deus, Aquele que nos chama à paz. Portanto, a paz é-nos dada por um convite a cada pessoa, que não prescinde da nossa atenção responsável. Esta atenção é profundamente existencial, nela se vê se os sentimentos e pensamentos mais profundos, que nascem em nós diante da vida, confessam Jesus Cristo pela paz e alegria de fundo. Aqui vigiar é estar atento ao coração para O encontrar.

Na carta de S. Paulo, somos convidados a levantarmo-nos do sono. Se a hora de Deus chegar a nós está perto, não podemos viver como se nada fosse. Aquilo a que Isaías nos chama a reconhecer, que Deus nos chama à paz no meio do tempo, S. Paulo não pode senão transparecer na nossa vida. Aqui vigiar é perguntar-me: até que ponto transpareço aquilo que me enche o coração?

No Evangelho, Jesus convida a uma confiança muito radical em Deus. Radical, não por ser extremada mas por ser absoluta e de doação. Absoluta porque não sabemos o futuro, e só Deus é o ponto sólido para Quem se implica no presente. De doação porque o Filho do Homem, único que me pode dar a paz, quer-Se oferecer a mim e chama-me a recebê-lo em cada momento. Vigiar é expressão desta confiança.

Portanto, somos hoje chamados a esperar Aquele que vem, vigiando os movimentos do mundo a partir do coração, do centro de nós, para que, vivendo em concordância com essa espera, nos possamos abrir confiadamente Àquele que quer vir a nós. Assim, vigiar não é uma ameaça, mas uma exigência para o coração aberto à beleza que vem até nós gratuitamente.


Is 2, 1-5

Rom 13, 11-14

Mt 24, 37-44

* título do post retirado de um poema de Daniel Faria.

26 de novembro de 2010

Quem seria hoje João Berchmans?

Quando a Igreja propõe alguém como Santo, significa que reconhece nessa pessoa um modelo para a vida de um ser humano comum. Os Santos não querem ser modelos inalcançáveis e muito menos pretendem distanciar-se, assumindo-se como pessoas que nasceram naturalmente assim. Os Santos não nasceram Santos… fazem-se! Com altos e baixos, com avanços e recuos, com alegrias e tristezas, nas circunstâncias normais do dia-a-dia. E quem melhor que o próprio para assumir essa tarefa?
Para ser Santo não precisamos de esperar uma grande provação para mostrar a nossa “fibra”. A santidade não se improvisa! Com as pequenas (ou grandes) exigências que a vida nos traz somos desafiados a vivê-las com os olhos postos no céu e os pés bem assentes na terra. Isto é, ter um horizonte de esperança que não nos deixe alheados da realidade e nos implique com o mundo em vivemos hoje.

A vida de João Berchmans foi curta. Nasceu na Bélgica, em 1599 e morreu com uma doença pulmonar aos 22 anos. Conta-se sobre ele que era muito esforçado no cumprimento das suas obrigações e que fazia as pequenas coisas do dia-a-dia com o máximo empenho: maximus in minimus era o seu lema! Considerava que no quotidiano da vida estava a melhor forma de se santificar.

Para nós, jesuítas na fase do juniorado, São João Berchmans é o nosso padroeiro. O seu testemunho de grande simplicidade faz-nos perceber como, nesta fase de formação, podemos entregar toda a nossa vida ao serviço dos outros sem estar, no seu habitual significado, em acção.
São João Berchmans, mesmo tendo vivido há 4 séculos atrás, é um modelo de enorme actualidade. O que o distingue está na forma como viveu e não tanto naquilo que viveu.

Imagino um João Berchmans do século XXI, como um vulgar estudante universitário, alegre e descontraído, que vestisse calças de ganga, sapatilhas e t-shirt, que saísse para festejar as vitórias da sua equipa de futebol e soubesse cumprir as suas responsabilidades com nobreza.

Estará assim tão longe o horizonte da santidade?

24 de novembro de 2010

www.essejota.net ... para leres quando te faltar tempo.



Para a maior parte de nós os dias da semana que vão de segunda a sexta-feira são dias muito ocupados. Há a universidade, a escola ou o trabalho. Há mil e uma responsabilidades e exigências de uma vida inserida na sociedade que corre, mesmo que a nós só nos apeteça parar ou andar em ritmo mais lento, mais contemplativos.
Eis, então, que chega o fim de semana e lá aparece um tempinho diferente, um espaço para fazermos alguma coisa que nos equilibre e nos situe no contexto de todo este percurso que é a nossa vida. Diria, no contexto do nosso texto, onde a nossa história vai sendo contada, semana após semana. Surgem então as agendas culturais, os jornais, as revistas, os livros, os passeios. Informamo-nos sobre o que se passou na semana e repousamos nalgum ócio ou nalgum encontro com amigos ou familiares.

O essejota.net pretende enriquecer estes mesmos espaços. É uma webzine, isto é, uma magazine de publicação exclusivamente online. Nele posso encontrar quinzenalmente, os textos, os comentários, os vídeos, as músicas etc que uma equipa de redacção espalhada por todo o país prepara para nos encher as medidas com algo que dê qualidade ao nosso tempo.

Esta webzine olha para o mundo através dos olhos da fé, da esperança e do amor e aprofunda as questões de um modo mais particular através do carisma que dá identidade ao site: a espiritualidade inaciana.

Por fim, uma pormenor que é quase um milagre: todos estes quase 70 colaboradores do essejota.net trabalham em regime de voluntariado. Bem hajam!

Fica o convite a um tempo bem passado pelas páginas do essejota.net.

23 de novembro de 2010

Humor, uma biografia

É difícil falar da morte; de qualquer morte. Parece estranho que algo se levante de um corpo caído, como um hino. Qualquer som, depois da derradeira bala, fica engolido pelo impacto, porque o seu silêncio é maior. E mesmo as espingardas lhe fazem continência logo que tossem o seu rugido. Por isso, há que avançar com solenidade e prudência por esse Trilho Maior dos que partiram em plena “salva”, não aconteça que busquemos triunfos grandiosos num terreno onde só os pobres reinam. E todos somos mendigos nessa mesma via.

Quero ver se por este modo capto a simpatia da minha senhora sogra (o Governo de Calles) e me livro das suas carícias que já fizeram cardeais nas minhas costas, pisaduras nas minhas rodasas faces e depilatórios nas minhas sedosas guedelhas. Eustáquio Zendejas.

Encomenda-se às orações e à generosidade dos fiéis uma pessoa que não tem dinheiro suficiente para fazer o voto de pobreza.

Frases soltas (e irónicas) de Miguel Pro.

A 23 de Novembro de 1927 caía um homem leve. Se a vida de Miguel Pro fala de tenacidade no testemunho da sua fé convicta e criativa, principalmente junto dos operários mexicanos, durante um período de relações tensas entre Igreja e Estado, fala também, e muito, de sentido de humor. Miguel foi um homem de uma alegria contagiante e até subversiva. Talvez por adivinhar que não há sombras sem luz, via gargalhadas onde os outros não suponham senão lágrimas. Esse “milagre” de ver o brilho simples que as coisas têm quando as examinamos com espanto fê-lo profundamente cativante. E também perigoso. Porque este humor revoluciona.

A bala derramou-se nele, cumprindo o voto de que cessasse o riso insurrecto. O problema da bondade é ser resistente.

Seria bom resgatarmos estas biografias aos mitos. Tirar os santos das prateleiras em que os guardámos - cativeiros de cristal -, e sentá-los numa poltrona suja e com migalhas para que nos tragam as boas notícias que os fizeram humanos. E assim, animados por uma história trivial, possamos tornar a nossa vida num conto igual, feito com a carne da alegria de nos descobrirmos no álbum de família de tantos santos, e mais: do próprio Deus.

21 de novembro de 2010

Cristo Rei



Hoje, último Domingo do Ano litúrgico (Domingo XXXIV do Tempo Comum), celebra-se em todo o mundo a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do universo.

Uma das muitas respostas possíveis à pergunta: “Quem é o Cristo Rei?” poderia ser: “É um monumento.” Imaginemos o caso de se estarem a referir, por exemplo, ao monumento ao Cristo Rei que se encontra em Almada, em Portugal.
Neste cenário, podemos ainda perguntar: “Mas será que a mesma resposta dada por várias pessoas seria exactamente igual? Ou seja, mesmo que muitas pessoas respondessem “monumento” todas estariam a dizer a mesma coisa?”
E se a seguir lhes perguntássemos: “E o que é que vê no monumento?” ou “O que é que o monumento lhe “diz”, lhe faz lembrar, leva a pensar, para onde ou para quem o “transporta”, …?” Provavelmente a esta pergunta seriam dadas várias respostas. E provavelmente tantas quanto o número de pessoas a quem se perguntasse. No final, o monumento continuaria impávido e sereno, mas possivelmente cada uma dessas pessoas seguiria com a imagem do monumento mais presente. Afinal de contas alguém as tinha feito pensar sobre o monumento ao Cristo Rei.

No Evangelho de hoje, de S. Lucas (Lc 23, 35-43), encontramos uma situação semelhante. Diferentes pessoas a olharem para Jesus crucificado. Encontramos os chefes dos judeus a afirmar: “Salvou os outros: salve-se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito”. Depois os soldados, que troçando de Jesus diziam: “Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo”. Depois intervém um dos ladrões, que também estava crucificado, e que diz: “Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também”. E ainda o “bom ladrão”, que acredita que Jesus “não praticou nada de condenável” e que pede simplesmente a Jesus que se lembre dele. Talvez pudéssemos ainda imaginar mais pessoas na cena, cada uma a ter a sua própria imagem do que se passava.

Apesar de pontos comuns, não haverá, na passagem de S. Lucas uma diferença grande face à situação do monumento? É que na passagem de S. Lucas todas estas pessoas estão perante o próprio Jesus, perante uma pessoa, não perante um monumento. De todos os que falaram, o "bom ladrão" parece ter sido o único que percebeu que estava diante de alguém, e de alguém que tal como ele sofria. Parece ter sido o único que olhou verdadeiramente para Jesus sem estar preso a uma ideia feita, a preconceitos, sem apenas repetir o que foi dito por outros, sem estar preso só a si. E por isso Jesus dialogou com ele. Será que não temos muitas atitudes deste género ao longo da vida. Por exemplo: quantas vezes partimos para uma conversa com outra pessoa já a saber o que vamos dizer, o que queremos dizer, e não a querer saber o que essa pessoa nos tem para dizer? Será que o outro é para nós apenas um "monumento"? E quanto a Jesus? O que ainda não conhecemos dele não poderá ser por não lhe darmos espaço para que se dê a conhecer?

O “bom ladrão” foi o único que demonstrou saber, e por isso acreditou, qual é a realeza de Jesus, a verdadeira realeza de Jesus, aquela que se manifestou no meio dos sofrimentos da Cruz. Uma realeza que não pretende ganhar nada para Si mas só para os outros: “Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso”. Uma realeza que não busca o poder humano, poder esse que muitos receiam perder. Poderemos hoje encontrar à nossa volta algum “reino” a que possamos chamar de paraíso? No meio de tanto sofrimento, tanta tristeza, dúvida, angústia, …tanta crise. Mas se é de facto a felicidade o que queremos, que procuramos, porque acreditamos que existe e pode ser alcançada, então porque não deixar que Jesus, tal como fez com o “bom ladrão”, também nos ajude a alcançá-la? Porquê ficar de braços cruzados? Mãos à obra! Afinal de contas o Cristo Rei veio para nos dar vida, mas vida em abundância (cf. Jo 10, 10).

Não nos esqueçamos que, mesmo que o(s) monumento(s) nos ajudem a encontrá-Lo, o Cristo Rei ressuscitou, está vivo no meio de nós: “Digo-vos ainda: Se dois de entre vós se unirem, na Terra, para pedir qualquer coisa, hão-de obtê-la de meu Pai que está no Céu. Pois, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles.” (Mt 18, 19-20)

Porque não procurar Jesus, o Cristo Rei, para poder conhecê-lo? Uma sugestão? Por exemplo: experimentar não ficar só pelos “encontros virtuais” (facebook, e-mail, …) e marcar encontros presenciais. Como se pode conversar e beber uma cerveja pela Internet? Como é que se pode conversar e apanhar com a bola dos matraquilhos em cima pela Internet? Como é que se pode conversar e …

Leituras [Ano C]

•I leitura: 2 Sam 5, 1-3
•Salmo: 121 (122), 1-2.4-5 (R. cf.1)
•II leitura: Col 1, 12-20
Evangelho: Lc 23, 35-43

19 de novembro de 2010

A vida interna das palavras

Dentre as muitas coisas que “fizeram” o hi-God encontrou-se este filme que agora vos apresentamos juntamente com o guião, para permitir uma leitura mais densa.

O que “vive” por dentro das palavras? As palavras são ocas: são como a casca de um acontecimento que, depois de digerido, perdura como memória. Há qualquer coisa de ícone nas palavras: dispostas no “ambiente de trabalho”, servem-nos de atalho para algo que mora para lá delas, dentro delas. Por isso, entrar numa palavra é já um exercício de escavação: há que retirar as camadas de letras de um texto para descobrir aquilo para onde ele aponta. As palavras são como “alfândegas”: estão na fronteira de um encontro. E, no entanto, os seus contornos abrem-nos para novos mundos. Um “olá” abre uma conversa; um livro leva-nos a uma história; uma língua coloca-nos num país; um nome torna-nos próximos de uma pessoa. Mas, o próprio mundo “foi aberto” por uma palavra que o fez arrancar; uma Palavra que rompeu com o silêncio e pôs todas as palavras e todos os mundos em marcha. O Tempo povoou o mundo de histórias: galáxias, sistemas solares, planetas, oceanos, continentes, bactérias, plantas, animais, o ser humano: tudo faz parte de uma grande história. Para onde é que ela nos leva? Vai ter um “final feliz”? Há muitas palavras que nos prometem a felicidade, e chegam mesmo a lutar para que ela se torne real. Mas, onde guardamos essas promessas? O dia-a-dia, com tantas “palavras”, nem sempre nos deixa tê-las à mão; e esquecemo-las. Levamos os dias a correr de um para outro lado à procura daquela “coisa especial”, mas sem saber muito bem onde a poderemos encontrar. Se abrandássemos o ritmo para ouvir o que nos dizem os nossos sonhos mais secretos, o que ouviríamos? Para onde apontam? Se chegássemos a entrar dentro de nós, dentro do nosso coração, ouviríamos a pulsação mais profunda que nos diz: ama. Mas como? Como é que se ama?

O amor faz-nos mergulhar no que temos de mais valioso, sem o qual jamais poderemos viver. O Amor não é uma teoria. Por isso, não se chega ao amor só com “palavras no papel”, mas com “palavras vivas”. O corpo e tudo em nós há-de dizer amo-te. Deus fez o mesmo: encarnou. Mergulhou para a história do tempo e amou-nos até ao fim. Tudo o resto… são apenas palavras que passam.

18 de novembro de 2010

Hi-GOD : Um dia com Deus

Terá Deus lugar na minha vida para além de uma oração, ou da participação na celebração comunitária da Eucaristia? Esta foi a pergunta colocada no “Hi-God: um dia com Deus” de sábado passado, em Braga. A pergunta não foi nova para aqueles que participaram num evento que se repete já pela terceira vez. Este ano, serviu de mote o tema arquidiocesano – Viver (d)a Palavra.

Estreantes ou não, não perde pertinência a pergunta pela Palavra de Deus fora daqueles momentos que reconhecemos como próprios. Mas o objectivo do dia é alcançado ao proporcionar não só uma Eucaristia e um tempo de oração em moldes diferentes do quotidiano, mas também através de peddy papers pela cidade, jogos e animação na Avenida Central da cidade, partilha de modos diversos de viver a fé e o serviço aos outros, workshops e conversas por grupos sobre o modo como cada um reconhece a presença de Deus no seu dia-a-dia.

Deus no meu dia.
Deus ao acordar. Deus na expectativa. Deus ao saudar.
Deus ao esperar o autocarro. Deus no trânsito. Deus na sala de aula. Deus no gabinete de trabalho ou atrás do balcão. Deus ao preparar o almoço. Deus à minha mesa. Deus no meu descanso. Deus ao limpar e cuidar da casa. Deus ao olhar pela janela.
Deus ao partir. Deus ao chegar. Deus ao encontrar. Deus ao receber. Deus ao despedir-me.
Deus ao passear. Deus na cidade. Deus no campo. Deus na praia. Deus na montanha.
Deus no Verão. Deus no Inverno. Deus no Outono. Deus na Primavera.
Deus ao contemplar. Deus ao escutar. Deus ao jogar. Deus ao perder ou ao ganhar.
Deus no sorriso. Deus no silêncio. Deus no riso. Deus na tristeza. Deus na paz. Deus nas vítimas da guerra. Deus na abundância. Deus na pobreza. Deus na honra. Deus na desonra. Deus na saúde. Deus na doença. Deus na vida longa. Deus na vida curta.
Deus ao anoitecer. Deus ao recolher. Deus ao rever. Deus ao agradecer. Deus ao deitar.

Agora, o desafio é “Hi-GOD: o meu dia-a-dia com Deus”.

16 de novembro de 2010

Obrigado, JRS!

Sabia que o JRS fez trinta anos no último domingo?
Sabia que o JRS é o “Serviço Jesuíta aos Refugiados”?
Há muitos motivos para celebrar esta presença. Por exemplo…

Em África.
“Nos últimos seis meses, no Quénia, três assistentes de saúde mental realizaram três dias de sensibilização para a deficiência, em Março, em Maio e em Setembro, abrangendo mais de 600 alunos no campo de refugiados no noroeste.
Estas actividades, organizadas pelo JRS procuram sensibilizar a população estudantil para as possíveis capacidades das pessoas com deficiência e demonstrar quanto têm em comum com o resto da comunidade”.

Na América.
“O JRS lançou um apelo urgente de apoio para a população do noroeste do Haiti e para as pessoas que foram deslocadas internamente para sete campos na capital, todos afectados pelas últimas catástrofes no país.
Este apoio será uma oportunidade de reconstruírem as suas vidas e as das suas famílias”.

Na Oceânia.
“Pela primeira vez, o JRS será capaz de acomodar famílias de refugiados na Austrália, através do reconstrução de antigas casas de pescadores, num subúrbio perto da praia de Manly, em Sydney norte.
Recentemente, a organização realizou uma festa de inauguração para acolher os treze moradores, incluindo um bebé. Esta “casa abrigo”, será para eles um lar, até que os seus pedidos de asilo sejam processados, e os residentes capazes de refazer as suas vidas”.

Na Ásia.
“Estima-se que 20.000 pessoas fugiram para a Tailândia desde que eclodiu o conflito entre forças do governo e da Quinta Brigada do grupo étnico rebelde de Karen. Os combates começaram na manhã de segunda-feira, dia 8 de Novembro na cidade fronteiriça do sudeste do Myawaddy, menos de um dia depois das urnas eleitorais terem sido abertas na região militar controlada. O JRS respondeu quase imediatamente. Em poucas horas, tendas médicas, abrigos temporários e sites de distribuição de alimentos foram estabelecidos para os recém-chegados”.

Na Europa.
“O mundo do deslocamento forçado mudou dramaticamente desde 1980. O número de pessoas deslocadas à força no mundo aumentou de 16 para 45 milhões. No entanto, há cada vez menos lugares para onde os refugiados podem ir.
Em resposta, a intervenção do JRS precisa de manter a atenção nos mais esquecidos, nos desconhecidos, e naqueles que não estão a ser ajudados por terceiros. O Pe. Raper, o antigo director internacional do JRS, reforçou esta ideia numa conferência realizada na Universidade Pontifícia Gregoriana, em Itália, para comemorar 30 anos de serviço jesuíta aos refugiados, a resposta dos Jesuítas aos refugiados de um mundo em movimento”.

Mas, o que há, sobretudo, são inumeráveis motivos e milhões de pessoas pelos quais continuar a existir…

Os Santos das Reduções

Já é antigo, mas faz parte do imaginário de todos o filme A Missão, de Roland Joffé, com o Robert de Niro e o Jeremy Irons. A história dos padres jesuítas que foram para as Américas movidos pela sua paixão por Jesus Cristo, com o desejo de O anunciar àqueles que encontrassem. Com os índios Guaranis, construíram as Reduções, aldeias em que os defendiam da colonização e lhes ensinavam o Evangelho. Eram os padres que tocavam flauta, pintavam, construíam casas, escolas e igrejas. São padres com um verdadeiro nome e uma verdadeira história e, hoje, a Companhia de Jesus e toda a Igreja celebram a sua vida. São os Santos Roque Gonzàlez, Alonso Rodriguez e Juan del Castillo, jesuítas. Eis uma breve biografia de cada um destes Companheiros de Jesus.

Roque Gonzàlez y de Santa Cruz nasceu em Assunção (Paraguai), em 1576. Filho de nobres espanhóis, cresceu no Paraguai juntamente com os nativos. Assim, enquanto era educado na fé cristã, aprendeu os costumes e língua nativos. Estuda com os jesuítas, mas é ordenado sacerdote diocesano, com 23 anos e tem claro que a sua missão é entre os índios. O seu trabalho é de tal maneira reconhecido, que o bispo de Assunção o nomeia responsável da catedral. Para fugir às dignidades eclesiásticas e para continuar o seu trabalho junto dos índios, entra na Companhia de Jesus, com 33 anos. Para além de grande pregador, distingue-se como arquitecto, pedreiro, agricultor e médico.

Estabelece uma estreita relação com os Guaranis e começa as famosas Reduções, sendo o responsável pela Redução de S. Inácio, onde constrói uma praça pública, casas, uma escola e uma igreja. Ensina aos índios a agricultura e o pastoreio e prega o Evangelho recorrendo a imagens, à música e fazendo procissões. Passa o resto da sua vida abrindo Reduções, anunciando a fé cristã aos índios. Embora os baptismos tenham sido poucos, os índios reconheciam em Roque e nos seus companheiros jesuítas uma grande amizade. Viviam como eles, comiam como eles e quando o tempo era de fome, também passavam pelos mesmos sacrifícios; não era colonizadores, mas guardiães dos direitos e tradições dos nativos.

Em 1619, é ele o primeiro jesuíta a entrar no território onde agora é o Uruguai, quando o chefe de uma tribo lhe pede que estabeleça uma Redução para a sua gente. Assim, em 1620, funda a cidade de Concepción.

Alonso Rodriguez nasceu em Zamora, em 10 de Março de 1598. Estudou em Salamanca, onde entrou na Companhia de Jesus e logo se ofereceu para as missões do Novo Mundo. Ainda enquanto estudava é enviado para as Américas, onde chega em 1617. Estuda e é professor em Córdoba (Argentina) e é ordenado sacerdote em 1624. Logo é destinado à evangelização dos índios guaicurus.

Juan del Castillo nasceu em 14 de Setembro de 1595, em Belmonte (Espanha). Estudou Direito na Universidade de Alcalá e entrou na Companhia de Jesus em 1614. Dois anos depois, parte – como era seu desejo – para as Américas, no mesmo barco em que ia Alonso Rodriguez. Como este, estudou na Argentina e, depois, no Chile, onde é ordenado sacerdote, em 1625.

Os três fundaram uma Redução junto ao rio Ijuhi, dedicada a Nossa Senhora da Assunção. Castillo fica responsável, enquanto Roque Gonzàlez e Alonso Rodriguez se dirigem para o actual Rio Grande do Sul (Brasil) para fundar a Redução de Caaró, em 1628. Devido aos conflitos com o líder religioso Nhéçu, Roque e Alonso são martirizados no dia seguinte à sua chegada. Um grupo de apoiantes de Nhéçu dirige-se à Redução onde estava Castillo, que sofre o mesmo martírio dois dias depois, 17 de Novembro de 1628.

No dia 28 de Janeiro de 1934, o Papa Pio XI beatifica estes três missionários, que são canonizados no dia 16 de Maio de 1988 pelo Papa João Paulo II.

15 de novembro de 2010

sobre a anonimidade...

Na blogosfera é possível participar nas discussões como anónimo.

Quando alguém cria um blog, depreende-se que deseje comunicar para fora do seu circulo habitual de relações, pois, se não almejasse sair dai, teria mantido o seu blog como privado.
Do outro lado, quem navega na Blogosfera tem uma de duas atitudes: ou quer encontrar o familiar, o que já pensava; ou o diferente, o que está no pólo oposto ao seu.


Daqui se segue que existe uma assimetria entre post e comentário: o redactor do post expõe-se, afirma, defende algo, o comentarista pode concordar ou discordar.
Nada de surpreendente, nem de errado...
Então, por limite da assimetria, o desejo de encontro e de comunicação, o diálogo, só se pode estabelecer quando o "comentarista" o deseja, pois o redactor ao revelar-se à partida, fica aberto ao diálogo. O comentarista pode esconder-se atrás do anonimato, pode não apresentar a sua identidade, nem sequer como se chama. (É justo distinguir, antes de avançar, quem, não colocando o seu email, se identifica assinando com o seu nome, e quem não faz isso.)


Quando respondo a alguém, começo o meu comentário com "Caro", a seguir, desejaria poder continuar a escrever com o nome da pessoa a quem me dirijo. Dizer "Caro Anónimo" é muito mais que impessoal, é vazio. Várias vezes deixei de responder por não ter a quem me dirigir.

Além disso, surgem as questões práticas: por vezes encontramos comentários de vários "anónimos", mas como responder a cada um, se não posso distingui-los? Nem sequer posso saber se dialogo com uma mesma pessoa, ou com várias...



O argumento pode ser resumido assim:
O blog "Companhia dos Filósofos" permite que alguém escreva sem se identificar, e não vamos retirar essa funcionalidade, mas, quem deseja comunicar, quem deseja estabelecer diálogo tem que baixar a guarda e avançar com algo para a mesa das conversações, nem que seja apenas dizer o nome - que é, normalmente, a primeira coisa que dizemos de nós aos outros. Ou então, escondendo o nome, fica remetido à atitude indiferente, e violenta, de quem manda bocas sem se responsabilizar pelo que afirma.




Não resisto a chamar à atenção para a forma como eventuais comentários a este post possam vir identificados ou não...

14 de novembro de 2010

Os meus pensamentos são de paz e não de desgraça*

Uma leitura apressada e superficial das leituras deste domingo podem causar em nós alguma perplexidade. Fala-se em destruição, guerras, perseguições… Mas, afinal, para quê este discurso? Não é, com certeza, para nos amedrontar, fazer viver inquietos, à espera da próxima desgraça. Se assim fosse, o Evangelho seria uma contradição!

No dia-a-dia deparamo-nos com situações de angústia, degradação, fracasso… Como se isso não bastasse, temos constantemente no ouvido, nos olhos, nas entranhas a grande ameaça da actualidade: a crise. O Evangelho parece dar-nos uma importante dica sobre a forma de nos comportarmos, como cidadãos e cristãos, perante a “cultura da crise”.

Repare-se na última frase do Evangelho: “pela vossa perseverança salvareis as vossas almas”. De facto, Jesus convida-nos a uma atitude positiva; com certeza que, se hoje Ele subisse ao ambão de uma qualquer igreja deste país, não o ouviríamos falar em crise, ou pelo menos de uma forma resignada e derrotista. Na verdade, nenhuma crise, nenhuma ameaça é para o cristão sinal de desânimo, mas oportunidade de salvação, de mais vida, de um optimismo consciente. Numa sociedade deprimida, com medo do que virá a seguir, os cristãos têm obrigação de marcar a diferença, mantendo uma atitude plena de esperança e de alegria. Não de uma alegria inconsciente, alienada ou ingénua, mas real, concreta e verdadeira, porque vem de Deus. Afinal, se quisermos estar atentos, não nos faltarão, em cada dia, motivos para sorrir.

Sabemos que Ele está connosco e escutamos o convite que Ele nos faz a sermos perseverantes. Que perseverança é esta? A que provém de uma profunda confiança em Deus que nos leva a um profundo enraizamento na nossa sociedade para testemunharmos esta alegria a cada homem e cada mulher com quem nos cruzamos.

Poderá haver maior potenciador de qualidade de vida que o Evangelho?

Lc 21, 5-19

* Da Antífona de Entrada do Domingo XXXIII do Tempo Comum (Jer 29,11)

13 de novembro de 2010

Estanislau Kostka: integridade e exigência interior

«Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – (Deus) disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer. [...] Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d'Ele outra realidade ou novidade».

São João da Cruz, Subida del monte Carmelo 2, 22, 3-5


Hoje a Companhia de Jesus comemora a vida de S. Estanislau Kostka.
Viveu no século XVI, nasceu na Polónia e foi a pé até Roma onde entrou na Companhia apesar da enorme oposição da sua família, em particular de um seu irmão.
Morreu muito novo, aos 18 anos, durante os primeiros tempos da formação jesuítica, donde se depreende que não pode ter sido homem de grande impacto apostólico nem pode ter sido um grande teólogo, mas é santo, porque viveu a sua vida à imagem do modelo maior: Jesus.

O Pai revelou tudo em Jesus, como nos diz S. João da Cruz, agora basta-nos reparar no seu exemplo e usa-lo como modelo. Não é para imitar acriticamente ninguém, tal seria infantil, desresponsabilizante e infrutífero. Trata-se antes de escolher o projecto de felicidade que Jesus apresenta e propõe, e ser fiel a esse projecto, experimentando continuamente a o sentido que essa Vida traz.

Estanislau, em particular, sentiu que a sua realização pessoal, o seu projecto de felicidade, passava pela vida na Companhia de Jesus. Existem outras formas de ser feliz como Jesus - uma por cada pessoa. Mas ignorar onde me sinto mais eu próprio, é mentir-me e adiar um estado esplêndido de vida.

A vida de Estanislau provoca-nos a não deixarmos para amanhã o imperativo cristão: Homem, sê fiel ao teu íntimo, onde a tua vontade é mais verdadeira.

11 de novembro de 2010

Revista "Brotéria" já está presente na internet



O "site" da Brotéria já existe!
Aqui vai poder ser gratuitamente consultado e dele constarão numa primeira fase:
- Os índices dos artigos da Revista Brotéria, desde 1938 até à actualidade, pesquisáveis por título, autor e ano de publicação. Neste momento estão também disponíveis em PDF todas as revistas do ano de 2009.
- Destaque de alguns artigos publicados nos últimos números.
Numa segunda fase passarão ainda a estar disponíveis outros documentos e publicações existentes na biblioteca da Brotéria.
Como se vê, é um "programa" ambicioso e hoje indispensável que fornece aos nossos leitores e a outras pessoas e instituições uma vasta e interessante oferta e que irá sendo progressivamente posto em prática e actualizado.
É, para nós, Revista Brotéria, um motivo de alegria e de satisfação poder servir deste novo modo o nosso público, os nossos amigos e os nossos leitores, amantes da cultura e do Cristianismo.
A todos os que contribuíram para a realização desta iniciativa, o nosso muito obrigado.
Longa e feliz vida ao site www.broteria.pt !. ..
P. António Vaz Pinto, SJ


"A revista Brotéria foi fundada nos princípios de 1902, como Revista de Ciências Naturais do Colégio de S. Fiel, pelos padres Joaquim da Silva Tavares, Carlos Zimmerman e Cândido Mendes. Tomou o nome de Brotéria, em homenagem ao célebre naturalista português Félix de Avelar Brotero(1744-1829). Em 1907 aparece organizada em três séries: duas mais especlalizadas-Série Botânica e Série Zoológica, e outra de Vulgarização Científica. Em 1925 a série de Vulgarização Científica começou a publicar-se como Revista de Cultura Geral e a partir de 1932 ficaram as suas séries científicas fundidas na de Ciências Naturais."
adaptado de: António Lopes, Roteiro Histórico dos Jesuítas em Lisboa, Braga, AI/AO, 1985

8 de novembro de 2010

Entre o conservar e o inovar: que ousadias pede o Espírito à Igreja?*





A multidão proveniente de todas as nações que há debaixo do céu ouvia nas suas línguas, atónita e maravilhada, os discípulos anunciar as maravilhas de Deus.
(Act 2, 3-11)



Depois da instituição da Igreja sobre Pedro e os Apóstolos e a dispersão dos discípulos a anunciar a Boa Nova do Reino, nunca mais o Espírito de Deus deixou de suscitar em homens e mulheres o desejo de viver esse Anúncio e dar testemunho dele. As primeiras comunidades, os Padres, os mártires dos primeiros séculos, as santas e os santos conhecidos e anónimos, todos a concorrer para manter actual, no seu tempo, a mensagem de Jesus. O Espírito do Pentecostes desce hoje sobre cada católico que é enviado a falar a língua do território em que se encontra. Mas a verdade é que, no séc. XXI, os territórios não são geográficos e as línguas não são barreiras intransponíveis; essas terras de missão são os corações dos homens e mulheres que não encontram sentido, que andam confusos e perdidos e a língua é a do amor, que se traduz em gestos concretos, tal como Jesus viveu a Sua vida.

Que significa ser a Igreja de Deus e anunciar o Reino de Deus? O Reino de Deus não é lá no alto dos céus, nem é um região com fronteiras geográficas. Não tem tronos nem palácios. É um Reino de Paz, Justiça e Amor, em que cada um é chamado a servir e deixar-se servir gratuitamente. Pertencer à Igreja não é estar “filiado” num clube, estar num grupo coral ou no grupo de jovens, nem sequer é ir sempre à Missa e cumprir todos os preceitos. Não é estar, é ser; ser como os discípulos, viver ao estilo deles – que era o estilo de Jesus, o Cristo.

Vivemos num tempo privilegiado, após o Concílio Ecuménico Vaticano II (CVII) (11.Outubro.1962 – 8.Dezembro.1965). E vivemos há muito tempo a ouvir dizer que a Igreja Católica é retrógrada, conservadora, “cheira a mofo”. A Igreja não permaneceu inerte espectadora da evolução dos povos, do progresso científico, das revoluções sociais (Humanae Salutis §4). Partindo da Sagrada Escritura, da Tradição, dos Sacramentos, da oração, das actividades caritativas e sociais – de sacerdotes, religiosos e leigos –, a Igreja virou-se, com o CVII, ainda mais para os problemas e trabalhos da realidade do mundo em que se insere: vivificando a ordem temporal com a luz de Cristo, revela também os homens a si mesmos, o próprio ser, a própria dignidade e a própria finalidade. Daí a presença viva da Igreja, estendida, hoje, de direito e de facto, às organizações internacionais, e daí a elaboração da sua doutrina social referente à família, à escola, ao trabalho, à sociedade civil e a todos os problemas conexos (HS §7). Passados quase 50 anos do CVII, a presença da Igreja no mundo é visível em todos estes meios, homens e mulheres que colaboram com tantos homens e mulheres de boa vontade na sustentação e avanço do mundo.

Durante o CVII, Paulo VI sucedeu a João XXIII, depois da sua morte (3.Junho.1963). Desde então, serviram a Igreja João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI. Documentos oficiais, cartas e encíclicas são o lado mais formal de uma Igreja que vive o Reino de Deus no concreto da vida de cada católico.

Não vivemos numa Igreja estagnada, ancorada a um passado que já não é. Vivemos numa Igreja consciente do mundo em que vive, que vive no mundo, inculturada nas realidades culturais, políticas, sociais, etc. de cada continente, de cada pessoa. E somos uma Igreja consciente da sua História, da Tradição recebida como herança, transmitida ininterruptamente. Uma Tradição actualizada pelos Profetas, encarnada por Jesus e incarnada por nós, que a recebemos e temos o compromisso de a entregar aos filhos que nos sucederão.

Só o exemplo de cada um pode mostrar que, entre tantos modos de viver que hoje o mundo parece oferecer-nos – todos aparentemente do mesmo nível –, só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura (Bento XVI, em Lisboa).

A Igreja não é o contrário do Mundo, como alguns nos querem levar a crer. A Igreja está no Mundo e vibra com a sua realidade. E o Espírito está na Igreja, em cada um dos que a constrói. O que é pedido ao coração de cada um é que bata ao ritmo da actualidade, se entregue a cada Irmão seu. João Paulo II já nos falava desta necessidade: precisamos de Santos que amem apaixonadamente a Eucaristia e que não tenham vergonha de tomar um copo ou comer uma pizza no fim-de-semana com os amigos. Precisamos de Santos que estejam no mundo; e saibam saborear as coisas puras e boas do mundo, mas que não sejam mundanos.

O que choca não é uma Igreja arcaica, porque está ao alcance de todos vê-la actual, no mundo de hoje. O que choca é ver a Igreja a ir onde ninguém quer, a fazer o que ninguém quer e a estar onde estão todos, mas não como estão todos: quer estar como é próprio de Jesus, isto é, completamente apaixonado pelo mundo que encontra.

* título do workshop apresentado no AfterBen, dia 2 de Outubro de 2010 (www.afterben.com)

6 de novembro de 2010

Enquanto vivo, digo-te… (Lc 20, 27-38)


“Vais morrer”. “Obrigado pela novidade, mas já o sabia”.

Sim, sabemo-lo, mas poucos são os que ficam tranquilos ao ouvirem falar dela. Quer com a própria, quer com a dos próximos, surge uma reacção no nosso interior.

Alguns temem as circunstâncias nas quais perderão a vida, outros agitam-se ao imaginarem o que virá depois. Infelizmente, também há quem se deleita metendo medo.

Na cena do Evangelho de hoje, o problema que os saduceus apresentam a Jesus não é uma questão de cálculo matemático infantil, nem um conflito familiar irresolúvel.
Apenas pretendem provocá-lo, com certa originalidade, mais uma vez. Pretendem pôr a prova o seu ensino, se calhar também a sua fé pessoal. Mas ele não duvida, o nosso Mestre parece sereno e convincente (mais uma vez).
Essa vida futura é segura, mas como será? É então que a nossa imaginação começa a trabalhar. Cada um elabora uma imagem de algum paraíso verdadeiramente desejável, sempre segundo a espiritualidade que conhece, e dependendo muito do que ouviu dizer aos outros. Também de um inferno cheio de tudo o que é desagradável.
Mas possivelmente isto seja algo parecido a uma lenda bem argumentada, perpetuada ao longo dos séculos. Possivelmente ninguém está certo o que será na realidade.
Ninguém pode saber, com certeza.
Pois, o que significará o facto tão intrigante de “sermos como anjos?”, em que se traduzirá o “sermos filhos de Deus?”, como é que “participaremos na Ressurreição?”.

Imaginem, mas não temam!
“Anjo”, “filho” e “participar” são palavras que, antes de mais, soam a “amor”. Esta presença prometida junto ao Pai, com tantos irmãos perto, enche-me de paz.
De facto, preocuparmo-nos erradamente sobre o que acontecerá depois despista-nos da nossa missão principal agora: viver (acertadamente).

Quem não se atreveu a descrever a chegada daquele Messias Salvador?
Alguém imaginaria que iria chorar numa manjedoura escura?

Quem de entre nós, mortais, sabia que ia nascer antes de nascer? Porém, inconscientemente, confiamos.
Quem de entre nós, viventes, sabe o que acontecerá quando chegar o momento de deixar de viver?

Confiemos, então. E vivamos em paz. E partilhemos essa paz.
A razão é simples: o nosso Deus escolheu sê-lo não de mortos, mas de vivos.
E tu, ainda estás vivo.

5 de novembro de 2010

Memória de todos os santos da Companhia de Jesus













É já hábito neste blogue recordar aqueles que marcaram a memória da Companhia de Jesus por uma vida singular, quer nos grandes gestos, quer no discreto da vida comum. Hoje a Companhia de Jesus marca um dia para a memória de todos aqueles que na sua história falam da santidade: relembra “todos os santos da Companhia”.



Este dia surge à imagem do passado “dia de todos os santos” que celebrámos esta segunda-feira na Igreja. Nesse dia, a memória é sobretudo a daqueles que viveram as suas vidas no dom da santidade e que hoje se encontram junto do Pai, mas cujas histórias passaram despercebidas aos olhos da História. Não tanto Paulo, não tanto Pedro, não tanto Agostinho ou Tomás de Aquino, não tanto Bento de Núrsia, não tanto Francisco de Assis, Teresa de Ávila ou Domingos de Gusmão. Também, mas sobretudo aqueles que, heróica ou discretamente, fizeram das suas vidas lugar de santidade, lugares de Deus, sem que os seus nomes tenham ficado guardados no cânone dos santos. À luz desse dia, também hoje, mais que Inácio de Loiola, Francisco Xavier, Pedro Fabro, Afonso Rodrigues, João Berchmans, ou Miguel Pró, lembramos aqueles que fizeram parte deste corpo e lhe deram cada dia da sua vida como lugar de santidade, mas cujos nomes se perderam no tempo.


Se a vida daqueles cujos nomes lembramos nos estimulam no testemunho que a sua vida é para nós, estes mesmos e os que hoje celebramos dão-nos, em conjunto, um estímulo maior: são o impulso que nos precede em direcção a uma vida de comunhão com Deus. Quando um homem entra na Companhia de Jesus, entra num corpo em movimento. O movimento desse corpo é gerado na vida de cada jesuíta e a vida daqueles que dão lugar à santidade move o corpo para Deus. A relação é recíproca: digo “fizeram das suas vidas lugar de santidade”, ou “a vida daqueles que dão lugar à santidade”, porque é isso, de facto, o que queremos dizer quando falamos dos santos: a sua vida é lugar do Santo, de Deus; Ele, por sua vez, move o corpo num movimento de vida, de atracção a Si, porque vive amorosamente atraído por cada ser humano. Essa reciprocidade e esse movimento é a santidade vivida na vida discreta de tantos homens e mulheres na Igreja.


Quando celebramos a memória de todos os santos da Igreja e em particular na Companhia de Jesus, é esta santidade que celebramos: o Santo e aqueles que lhe deram como casa a sua vida.



Ícone: visão em La Storta

2 de novembro de 2010

Beato Rupert Mayer sj


Rupert Mayer nasceu em Estugarda, em 1876. Contrariando o seu desejo, o seu pai não o deixou entrar na Companhia de Jesus. Estudou, então, teologia e filosofia e foi ordenado sacerdote em 1899. No ano seguinte, entrou na Companhia de Jesus. Terminada a sua formação, trabalhou alguns anos como missionário popular e depois como capelão dos imigrantes em Munique. Durante a Primeira Guerra Mundial ofereceu-se como capelão militar. Em 1916, na frente romena, foi gravemente ferido tendo que amputar a perna esquerda. Foi condecorado pela forma como cumpriu heroicamente o seu serviço à nação como capelão militar.

Rupert Mayer foi um dos primeiros a aperceber-se da verdadeira índole do movimento nazi. Começou então a denunciar Hitler e toda a propaganda nazi. Considerava que um católico não poderia nunca ser nacional-socialista pois isso iria contra os valores defendidos pela Igreja. Foi impedido de falar pelas autoridades civis mas Rupert Mayer não obedeceu. Esteve preso por duas vezes, até que, em 1939, foi preso pela Gestapo e deportado para o campo de concentração de Orianienburg-Sachsenhausen. Aí as suas forças físicas caíram de tal forma que os nazis, com medo de que morresse como mártir, encerraram-no numa abadia. Permaneceu isolado até ao final da guerra. Retomou depois as suas actividades mas morreu passado pouco tempo, vítima de um ataque apoplético, no dia 1 de Novembro de 1945.

Nenhum santo é santo só por aquilo que fez de forma heróica, porque nunca o teria feito se antes não existisse a consciência de um Amor incondicional e gratuito e o desejo de uma resposta coerente a esse Amor. Assim, a santidade é muito mais uma rendição do que uma conquista, porque é fruto, não tanto do esforço, mas da gratidão. O grande trabalho é interior, aquilo que por fora se vê é reflexo do que por dentro se experimenta e de que se quer dar testemunho.

OS FINADOS , por Anselmo Borges

Característica essencial do nosso tempo é fazer da morte tabu, talvez o último tabu. Nunca tinha acontecido na história da humanidade.

De qualquer modo, as nossas sociedades ainda mantêm dois dias por ano (1 e 2 de Novembro) em que permitem a visita dos mortos. Os cemitérios enchem-se e as pessoas ali estão ou por ali andam, numa recordação, talvez numa prece, num choro íntimo ou exteriorizado, e interrogando-se sobre o mistério da morte, esse mistério absolutamente opaco e laminante.

A morte põe-nos em confronto com o nada e abala-nos desde e até à raiz. Martin Heidegger foi o filósofo do século XX que levou mais fundo o pensamento sobre a morte. O homem é o ser da possibilidade, o existente para quem no seu ser a questão é esse mesmo ser, isto é, a quem o seu ser é dado como tarefa, como poder ser. Ora, a morte é a sua possibilidade "mais própria", pois é a que mais o caracteriza, "irreferível", pois corta a relação com tudo o resto, remetendo-o para si próprio, "intranscendível", pois, enquanto possibilidade da impossibilidade, é a possibilidade extrema, a que se não pode escapar. A tentação permanente é distrair-se e não assumir a morte como essa possibilidade mais própria, irreferível e intranscendível, escapando-lhe pelo palavreado, pelo recurso ao "toda a gente morre", mas não propriamente eu. O homem cai então no esquecimento de si mesmo e perde-se numa existência inautêntica.

Frente à morte, debatemo-nos com paradoxos, que o filósofo Gabriel Amengual sintetizou.

Não é afinal a morte a coisa mais natural? Todo o animal perece. Mas a questão é que a morte humana não é redutível a um facto meramente biológico. Porque a morte afecta a pessoa enquanto tal, um quem, não um algo, alguém. "Ai que me roubam o meu eu!", clamava Unamuno perante a morte.

Há uma imensa variedade de mortes: uns morrem de velhice, outros de doença, outros de morte súbita, morre-se na guerra, num terramoto, num acidente... Mas há algo de comum nesta variedade: algo de enigmático, misterioso e indefinível se passa. É "o mais enigmático e ao mesmo tempo o mais sério, o sério por excelência, pelo seu carácter definitivo, irrepetível, irrevogável". Sobre a morte não temos nenhum poder, é ela que chega e comanda, iniludível e irremediavelmente. E todos morremos, mas a morte é sempre única e singular: cada um morre a sua própria morte.

A morte é o mais próprio do ser humano, mas, ao mesmo tempo, o mais estranho. Por isso, Freud escreveu que, "no fundo, ninguém crê na sua própria morte, ou, o que é o mesmo, no inconsciente todos nós estamos convencidos da nossa imortalidade". A minha morte é para mim inconcebível: ninguém pode conceber-se morto.

Todos sabemos que havemos de morrer. Mas este saber é um saber enigmático e especial: é sobretudo com a idade que nos apercebemos de que a passagem do tempo é inexorável e tem um limite para cada um.

A morte é o que temos de mais certo e ao mesmo tempo de mais incerto: não sabemos onde nem quando nem como morreremos. Outra vez: ela é o mais conhecido e ao mesmo tempo o mais desconhecido: ninguém sabe o que é morrer nem o que é estar morto.

Morremos porque somos corpóreos, mas quem morre é o homem. A morte afecta o homem todo. Daí, a pergunta inelutável: como é que alguém, uma dignidade, se pode tornar ninguém, coisa que apodrece?

E aqui está o paradoxo mais radical. Como seres históricos, na tarefa de nos fazermos, só no fim poderemos, como totalidade, dizer o que somos. Mas precisamente aí, pela morte, deixamos de ser neste mundo. Quem nos diz então o que verdadeiramente somos?

Os mortos são os finados. Na morte, chega-se ao fim. Que fim é esse? Esse fim com que é que confina? Com o nada enquanto termo de tudo ou aquele nada que é ocultação da Realidade primeiríssima que a tudo dá sentido, sentido último e salvação e onde por fim seremos nós?


[Imagem: allan maccollum-Collection of Forty Plaster Surrogates. 1982-84.]